Informe aos Pediatras sobre a Síndrome de Irlen

SPSP-Sociedade de Pediatria de São Paulo
Texto divulgado em 09/08/2017

 

Recentemente tem sido divulgado, pela imprensa, internet e mídia televisiva leiga a possibilidade de diagnóstico e tratamento da Síndrome de Irlen.

Essa síndrome foi descrita pela psicóloga americana, Helen Irlen, em 1987 e enquadra indivíduos com dificuldade de adaptação ao contraste, e distorção da percepção na leitura, leitura lenta e ineficiente, perdas de palavras em linhas de leitura.

A Organização Mundial de Saúde não reconhece a Síndrome de Irlen como doença, mesmo sendo divulgada desde 1987. Apesar de toda a divulgação pela mídia, onde depoimentos de pacientes foram usados para difundir o tratamento, a literatura médica internacional conclui em vários artigos científicos de revisão que o tratamento preconizado não apresenta evidência científica de eficácia.

Cientes de que oftalmologistas e pediatras estão sendo contatados por familiares de crianças com dificuldade de aprendizado quanto ao milagroso e caro tratamento, só realizado em uma clínica de Belo Horizonte, o Departamento de Oftalmologia da SPSP, vem por meio desta esclarecer a comunidade pediátrica.

A posição do Departamento de Oftalmologia da SPSP é semelhante ao das Sociedades Brasileira de Oftalmologia Pediátrica (SBOP) e Conselho Federal de Medicina de que não existem evidências científicas de que o uso de filtros coloridos traga benefício para crianças e adolescentes com dificuldade de aprendizado. Já em 2014 documento conjunto da Academia Americana de Pediatria, Academia Americana de Oftalmologia e a Associação Americana de Oftalmologia Pediátrica chegam a estas mesmas conclusões.

O Departamento de Oftalmologia da SPSP e a SBOP recomendam na suspeita de Distúrbio de Aprendizado o seguinte:
1. As crianças que apresentam sinais de dificuldades de aprendizagem devem ser referidas no início do processo, para avaliações diagnósticas médicas, educacionais, psicológicas e/ou neuropsicológicas.
2. Crianças com dificuldades de aprendizagem devem receber apoio adequado e intervenções educacionais combinadas com tratamentos psicológicos e médicos, conforme necessário.
3. Crianças com deficiência de aprendizado suspeita ou diagnosticada, devem ser encaminhados para um oftalmologista com experiência no cuidado de crianças e o exame oftalmológico completo deve ser realizado para afastar causas refracionais, ortopticas ou anatômicas que estejam influenciando na diminuição da capacidade visual, e, em consequência, dificultado a leitura para longe e perto e o processo de aprendizado.

Dra Rosa Maria Graziano – Presidente do Departamento de Oftalmologia
Dra Márcia Keiko Tabuse- Vice Presidente do Departamento de Oftalmologia
Dr Marcelo Costa – Secretário do Departamento de Oftalmologia

 

REFERÊNCIAS:

1. Galuschka K, Ise E, Krick K, Schulte-Körne G. Effetiveness of treatment approachesfor children and adolescents with reading disabilities: a meta-analysis of randomized controlled trials. PLoS One. 2014;9:e89900.

2. American Academy of Pediatrics, Section on Ophthalmology, Council on Children with Disabilities, American Academy of Ophthalmology, American Association for Pediatric Opthalmology and Strabismus, American Association of Certified Orthoptists. Learning Disabilities, Dyslexia, and Vision. Pediatrics. 2009; 124(2)

3. Joint Statement: Learning Disabilities, Dyslexia, and Vision – Reaffirmed 2014. Guidelines AAO. July 2014, AAP, AAPOS, AACO and AAO Hoskins Center for Quality Eye Care

4. Griffths PG et al. The effect of coloured overlays and lenses on reading: a systematic review of the literature Ophthalmic Physiol Opt. 2016;36:519-44.

5. Irlen Colored Overlay do not alleviate reading difficulties. Stuart J. Ritchie, Sergio Della Sala and Robert D, McIntosh. Pediatrics 2011; 128; c 932: originally published online Sptember 19, 2011

6. Colored overlays in schools: orthoptic and optometric findings. Lorna Scott, Hazel Mc Whinnie, Lynette Taylor. Physiol. Opt. 2002;22:156-65.
7- Faculdade de Ciências Médicas – Unicamp. Especialista da Unicamp alerta sobre controvérsias no diagnóstico e tratamento da Síndrome de Irlen. Disponível em: http://www.fcm.unicamp.br/fcm/relacoespublicas/saladeimprensa/especialista-da-unicamp-alerta-sobre-controversias-no-diagnostico-e-tratamento-da-sindrome-de-irlen