SPSP reúne representantes de diversos setores da sociedade para discutir o tema da campanha Maio Amarelo

SPSP-Sociedade de Pediatria de São Paulo
Texto  divulgado em 04/06/2018

 

Foi realizado, na sede da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP), no dia 26 de maio, o Café da manhã com o professor – Maio Amarelo – Depressão entre crianças e adolescentes: pare – observe – acolha. O evento fez parte da estratégia de combate à depressão e ao suicídio da campanha promovida pela Sociedade. Organizado pela Diretoria de Cursos e Eventos, Departamentos Científicos de Saúde Mental e Adolescência da SPSP, além do Núcleo de Direitos do Nascituro, da Criança e do Adolescente, o café da manhã reuniu médicos pediatras, pais, profissionais de saúde, professores, educadores e advogados.

O encontro, coordenado por Vera Ferrari Rego Barros, presidente do Departamento de Saúde Mental da SPSP, contou com uma plateia não só presencial, mas também virtual, incluindo representantes de escolas públicas e dos colégios Vértice, Maria Imaculada, Escola Metodista, Bandeirantes, além da ONG CAMP – Centro de Aprendizagem e Melhoramento Profissional e de mediadores do TJSP. Claudio Barsanti, presidente da SPSP, afirmou, durante a abertura do evento, que a Sociedade tem buscado um contato cada vez maior com os diversos segmentos da sociedade, não se restringindo à comunicação com os seus associados ou com as sociedades médicas e afins.

“Eventos como este, com a participação de diversos segmentos da sociedade, têm sido cada vez mais frequentes e encorajadores de novas ações, uma vez que a depressão, não somente em adolescentes, mas também entre as crianças, tem apresentado números cada vez maiores e alarmantes”, destacou. Para o médico, discutir o tema e buscar ferramentas que permitam o real dimensionamento de sua prevalência, analisando e apresentando medidas para sua prevenção e para sua pós-venção, se fazem mandatórios.

O presidente da SPSP salientou que a grande importância do encontro é poder buscar soluções efetivas, em conjunto com a plateia presente, no combate de tão grande mal. “Tenho a plena convicção de que podemos mudar essa realidade; nossa campanha e a participação de todos os presentes nesta reunião, com a indicação de novos caminhos e busca de soluções, permitirão a adoção de medidas efetivas contra a depressão na infância e na adolescência”, apontou.

O que vem antes da depressão?

Em sua palestra, a psicanalista Cristiane S. G. Folino, membro do Departamento de Saúde Mental da SPSP, ressaltou que o tema depressão é de grande importância na atualidade e engloba inúmeras questões. Uma delas é que há vários tipos e manifestações da doença, podendo acometer desde bebês até adultos. “A depressão passa por crianças, adolescentes e mães que recém deram à luz um bebê, o que nos impõe um olhar cuidadoso acerca do tema”, revelou Cristiane, enfatizando que as manifestações preocupantes de depressão devem ser observadas quanto à sua intensidade, duração e repercussão na personalidade.

Para a especialista, há uma importante diferenciação a ser feita entre depressão e tristeza. “Tristeza é um afeto humano como qualquer outro e que precisa ser sentida, vivida, respeitada e acolhida. A tristeza condiz com uma dor decorrente de perdas importantes, além de necessária para a elaboração dessas perdas, o seu processamento”, explicou. Já a depressão, segundo a psicanalista, é uma condição emocional prolongada que pode atingir vários aspectos da personalidade. “Há um profundo sentimento de solidão, de incompetência, de estar sem saída; a vida perde a cor, perde-se o prazer de fazer algo que antes era muito importante.”

De acordo com Cristiane, uma ajuda importante que se pode dar à criança é não negligenciar o que ela sente, dando devido valor ao sentimento e espaço para sua expressão. “Ao longo da vida, desde o início, as crianças e os adolescentes precisam ser amparados pelos adultos que estão próximos, ajudando-os no processo de crescimento, que não é fácil e inclui diversos desafios a todo momento, tanto para os pequenos quanto para os pais”, esclareceu a especialista, salientando que uma das maneiras mais efetivas de amparar crianças e jovens é ajudá-los a crescer e a enfrentar os desafios decorrentes deste processo.

Depressão na adolescência: mais além do suicídio

A médica pediatra Andrea Hercowitz, especialista em Adolescência pela SPSP, destacou que a depressão não é uma preocupação só do Brasil, mas de inúmeros países, uma vez que vem se percebendo um aumento nos índices de depressão em escala mundial. “Este ano a American Academy of Pediatrics (AAP)  lançou um guideline para saber identificar, acompanhar e tratar pacientes com depressão”, comentou. Os dados mostram que 9% dos adolescentes apresentam depressão, sendo que um a cada cinco adolescentes têm depressão em algum momento da adolescência e que somente 50% destes são diagnosticados antes da idade adulta. “E mesmo quando diagnosticados, apenas 50% recebem tratamento adequado”, acrescenta Andrea.

Uma das questões da dificuldade diagnóstica da depressão, segundo a especialista, é que a adolescência normal possui algumas características que se confundem muito com os sintomas da depressão, como por exemplo irritabilidade e apatia, isolamento, perda de interesse por atividades, alteração do sono, piora do rendimento escolar, uso de drogas e insatisfação com o corpo (características que podem fazer parte da adolescência normal). Além disso, a depressão possui várias faces, entre as quais pode-se  destacar o transtorno alimentar, o cutting/automutilação e a dependência de drogas.

Dentre os transtornos alimentares, os principais na adolescência são a anorexia nervosa, bulimia e compulsão. “Com relação ao cutting/automutilação, o que a gente percebe é que o adolescente se machuca para buscar alívio de uma ‘tensão interna’. Na realidade, o que ele está fazendo é transformar uma dor emocional em uma dor física”, observa a médica. Por fim, ela revelou que a dependência de álcool e drogas é a principal causa de acidentes, violência e mortes prematuras na adolescência e aumentam muito o risco de comportamento suicida.

E por que um adolescente deprimido procura droga? Andrea diz que é pela busca de um bem-estar (seja pela via oral, inalatória ou injetável). “Mas, evidentemente, é um bem-estar transitório, uma fuga temporária da realidade”, declarou, informando que as drogas mais usadas na adolescência são o álcool, a maconha, o ecstasy e a cocaína/crack. “E além da dependência do álcool e drogas, não podemos deixar de citar as outras faces da depressão, sendo uma delas, e muito presente na atualidade, a dependência dos jogos eletrônicos (como uma fuga do mundo real para o mundo virtual).”

Descaminhos do afeto

A psicopedagoga e terapeuta familiar Rita de Cassia S. L. Vázquez salientou em sua apresentação a importância do “pertencimento”, destacado pelo psicoterapeuta alemão Bert Hellinger, no qual ele enfatiza que o pertencer envolve compartilhar o destino (ideias e ideais). “E nada pior para uma pessoa e para uma criança/adolescente do que sentir-se excluída desse pertencer. E o que nos dá essa sensação do pertencer é a consciência”, explicou, comentando que temos várias consciências de acordo com a variedade de grupos a que pertencemos. “E isso leva à consciência de vinculação, que pressupõe a criação de vínculos.”

Para Rita, a sociedade atual está mudada, existem estruturas diferentes na composição das famílias, há um novo ecossistema informativo. “O papel da escola também mudou, cresceu, daí a importância das escolas de perceber determinados comportamentos das crianças e adolescentes e como ela pode ajudar as famílias”, destacou. Ela diz que muitas crianças vão para a escola sem uma socialização primária, o que pode acarretar em conflitos, violência, assédio, depressão/suicídio, além de bullyng e ciberbullyng.

A pedagoga enfatizou que o bullyng compreende todas as formas de atitudes agressivas, intencionais e repetidas, que ocorrem sem motivação evidente, adotadas por um ou mais estudantes contra outro(s), causando dor e angústia e executadas dentro de uma relação desigual de poder. “Significa usar o poder ou a força para intimidar, excluir, implicar, humilhar, não dar atenção, fazer pouco caso e perseguir os outros.” Os efeitos do bullyng são: agressividade/isolamento, distúrbio do sono (pesadelos), ansiedade ou indisposição para ir à escola, diminuição da capacidade de aprendizagem, tristeza sem explicação, contribuição para a depressão em crianças e jovens e, em alguns casos, pode levar ao suicídio.

Mas, para a especialista, é possível prevenir o bullyng. “Através de canais de comunicação dentro da escola, do desenvolvimento da resiliência nos alunos, dando-lhes a oportunidade de sucessos, transmitindo conhecimento mútuo, realizando construção de vínculos e capacitação da comunidade escolar na identificação deste bullyng.” Para ela, toda a comunidade escolar é agente de mudanças e de liderança e, portanto, o desenvolvimento da consciência de pertencer à escola é primordial. “Dessa forma, o desafio da escola pós-moderna é envolver toda a comunidade escolar na busca da consciência de pertença e o grande desafio hoje é conciliar individualização com consciência de pertença”, afirmou.

Ao final do encontro, houve uma discussão entre os palestrantes e a plateia presente, que pode relatar suas experiências pessoais e tirar dúvidas, e também foram apresentadas algumas propostas de combate à depressão entre crianças e adolescentes, reforçando a campanha promovida pela SPSP.  “Na realidade, tivemos ao final das apresentações um grande diálogo, uma troca de experiências. A ideia é que várias propostas sejam apresentadas em um Manifesto, que terá como signatários, além da SPSP, os representantes das diversas instituições presentes no colóquio e a constituição de um novo núcleo de trabalho que irá lidar com a questão da depressão”, concluiu a coordenadora do evento Vera Ferrari.

 

A gravação  do evento está disponível na íntegra, clique aqui  e entra na opção Aulas Gravadas

Obs: é necessário fazer um breve cadastro para ter acesso ao video

Claudio Barsanti faz a abertura do evento

 

Da esquerda para direita: Vera Ferrari Rego Barros; Cristiane S. G. Folino; Andrea Hercowitz e Rita de Cassia S. L. Vázquez

 

Participantes do evento