Fórum de debates promovido pela SPSP lança campanha “Combate à Obesidade Infantil – Setembro Laranja”

SPSP – Sociedade de Pediatria de São Paulo
Texto divulgado em 17/08/2018

 

Foi realizado, na sede da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP), no dia 11 de agosto, o Fórum de Debates sobre Prevenção da Obesidade Infantil: Visão dos Especialistas da SPSP, evento que deu início à campanha “Combate à Obesidade Infantil – Setembro Laranja”. Organizado pela Diretoria de Cursos e Eventos e Departamento Científico de Nutrição da SPSP, o Fórum foi coordenado pelo presidente da SPSP, Claudio Barsanti, e pelo presidente do Departamento Científico de Nutrição da SPSP e coordenador dos Deptos. Científicos da SPSP, Rubens Feferbaum. Além dos palestrantes, o evento contou com a presença da vice-presidente da SPSP, Lilian dos Santos Sadeck, e Fernanda Luisa Ceragioli Oliveira, membro do departamento de Nutrição e que coordenou uma das mesas-redondas.

 Durante a abertura solene do Fórum, Claudio Barsanti ressaltou que a campanha Setembro Laranja tem por objetivo não apenas divulgar o problema, mas, sobretudo, desenvolver e implementar ações e promoções de hábitos e práticas alimentares saudáveis nas escolas e em casa, além de estimular atividade física, visando a melhoria da qualidade de vida das crianças, suas famílias e as comunidades nas quais estão inseridas. “A obesidade é hoje um dos problemas nutricionais cada vez mais prevalentes entre as crianças nos países desenvolvidos e em desenvolvimento. A OMS estima que 41 milhões de crianças com menos de cinco anos estejam acima do peso”, apontou.

Segundo o presidente da SPSP, os pediatras e os profissionais que trabalham com crianças e adolescentes de saúde estão na linha de frente para detectar crianças acima do peso ou sob maior risco deste ganho e, por isso, o evento representou um importante espaço de troca de ideias e experiências sobre o assunto. “A partir das discussões realizadas neste Fórum, será elaborado conjuntamente um manifesto que contemple a necessidade e as demandas por informação, conhecimento, orientação e condutas para o enfrentamento da obesidade infantil”, enfatizou Barsanti.

Luciana Bergamo, promotora de justiça da Infância e Juventude de São Paulo e representante do Ministério Público do Estado de São Paulo, que também participou da abertura do evento, salientou em sua fala que a SPSP vem colaborando sobremaneira com o trabalho do Ministério Público e que a promotoria vem se dedicando aos inúmeros problemas que acometem a criança e o adolescente em diversas questões. “Nesse caso específico da obesidade infantil, instaurei um inquérito civil para apurar a questão em meados de 2017, pois recebemos um relatório da CPI da Assembleia Legislativa de São Paulo, que propunha uma série de medidas direcionadas ao governador do Estado de São Paulo, o qual este ano, felizmente, redundou em uma lei que inclui a disciplina de educação alimentar e nutricional no currículo escolar”, comentou.

Antônio Barros Filho, membro do Departamento de Pediatria Ambulatorial da SPSP e do Departamento Científico de Nutrição da SPSP, que deu início às palestras, abordou aspectos sobre a epidemiologia da obesidade, salientando que a obesidade no mundo mais do que duplicou desde 1980. “Em 2008, 1,5 bilhão de adultos acima de 20 anos apresentavam excesso de peso. Desses, mais de 200 milhões de homens e cerca de 300 milhões de mulheres eram obesos”, aponta.

Ele afirma que com crianças e adolescente esse dado não é diferente, há diversos trabalhos na literatura global demonstrando um aumento progressivo na taxa de sobrepeso e obesidade nesse grupo populacional. De acordo com o especialista, entre as determinantes apontadas na literatura para o desenvolvimento da obesidade na infância nos países em desenvolvimento estão a atividade física reduzida e o aumento na ingestão calórica, além de outros fatores.

“Além disso, há maior probabilidade de crianças filhos de pais obesos serem obesos na idade adulta, e estas influências são provavelmente resultantes tanto do ambiente quanto dos fatores genéticos”, revela. Dessa maneira, ele diz que o papel do pediatra na prevenção primária da obesidade é fundamental, orientando sobre a importância da alimentação saudável e estimulando a prática de atividade física, entre outros aspectos.

 

Prevenção da obesidade infantil

Na sequência, Rubens Feferbaum destacou que a nutrição materna é hoje muito estudada porque a questão da prevenção da obesidade não se dá somente durante os primeiros anos de vida da criança, mas ainda na fase de sua concepção. Ele comenta que há um percentual de 50% no Brasil, segundo a OMS, de mulheres jovens apresentando sobrepeso e obesidade. “Ou seja, já há um risco desta mãe começar com sobrepeso na sua gestação”, observa.

E a consequência disso, segundo o especialista, é que dependendo do índice de massa corpórea desta mãe durante a gestação, há uma tendência durante os primeiros meses de vida dessas crianças, de zero a seis meses e depois de seis a 12 meses, de estarem já acima do peso. “Isso significa que a prevenção da obesidade se inicia com o cuidado pré-natal dessa gestante”, esclarece.

O médico enfatiza a importância, na primeira infância, do aleitamento materno (AM) no crescimento, desenvolvimento cognitivo e imunomodulação das crianças, e que há estudos apontando que o AM está associado com redução no excesso de peso e obesidade. Em relação ao alimento complementar, o médico afirma que é preciso haver uma orientação adequada também nesta fase da vida, porque a alimentação complementar muitas vezes se sobrepõe ou está além de sua necessidade calórica e também da necessidade proteica dessas crianças.

A seguir, Adriana Siviero Miachon, presidente do Departamento de Endocrinologia da SPSP, destacou que a obesidade infantil é o distúrbio nutricional mais importante, tanto nos países desenvolvidos quanto nos países em desenvolvimento, e que depende tanto de fatores genéticos como de fatores não genéticos. “Nós, pediatras, temos uma grande responsabilidade na prevenção da obesidade infantil, pois ela se insere em uma série de distúrbios metabólicos. Além disso, ela possui várias comorbidades em diversos órgãos e sistemas”, ressalta.

De acordo com a especialista, é papel do pediatra identificar as causas da obesidade e as crianças que são de risco para ela, estabelecer os diagnósticos diferenciais, orientar no tratamento da obesidade e, fundamentalmente, abordar a prevenção. Dessa maneira, ela revela que a responsabilidade do pediatra engloba as seguintes questões: estimular o aleitamento materno e mudanças comportamentais, lembrar que existem diferenças individuais, que a restrição calórica pode prejudicar o crescimento e que a obesidade instalada tende a persistir e é difícil de tratar. “Por isso, o melhor sempre é prevenir, e o pediatra também é responsável por se envolver em programas sociais e na escola para ajudar no combate da obesidade infantil.”

 

Alimentação saudável na escola

Na opinião de Renato Augusto Zorzo, pediatra e nutrólogo com destacada atuação em Nutrologia Pediátrica, o pediatra deve agir na principal fonte de tratamento da obesidade: a prevenção, criando hábitos e orientando comportamento e alimentação saudáveis. Ele revela que há um documento de 2010 do Ministério da Saúde – Manual das Cantinas Escolares Saudáveis – que traz diversas orientações interessantes, mas que, no entanto, nem sempre é seguido. “Por isso o hábito tem que começar em casa e aí entra o nosso papel como pediatra para esse tipo de orientação”, analisa.

Mas como orientar os pacientes a fazerem as melhores escolhas dos lanches intermediários e também dos lanches escolares? “Existem algumas dicas de porcionamentos, que são práticas e que podemos levar para o nosso paciente”, ressalta Zorzo. Primeira dica, ele diz, o lanche deve ter no máximo 15% do valor energético total da dieta (lanches que excedam 300kcal são inadequados). Quanto ao sódio, deve conter menos de 400mg por porção; com relação aos aditivos, quanto menos melhor (acidulantes, corantes, estabilizantes, aromatizantes, etc). “E como observações gerais, verificar data de validade, presença de substâncias alergênicas e sempre ficar de olho nos produtos ultraprocessados, que invariavelmente têm excesso de açúcar, sal, óleos e aditivos”, alerta.

Mauro Fisberg, professor associado de Pediatria da EPM/Unifesp, que abordou o tema publicidade de alimentos dirigida às crianças, ressaltou que vários estudos desde a década de 50 mostraram que havia um novo público na organização da tendência do consumo da alimentação, especialmente nos países mais desenvolvidos, e já se discutia, naquela época, a possibilidade das crianças terem uma maior adesão às marcas. Ele comenta que o Brasil é o terceiro país que mais investe em publicidade no mundo.

“O gasto no segmento da publicidade infantil no mundo é de 11 bilhões de dólares e de 250 milhões no Brasil. Temos que lembrar que 80% de todo o consumo vêm por influência de propaganda e que existe uma influência muito importante das crianças nas compras realizadas pela família, porém só numa faixa muito posterior à idade pré-escolar”, revela o médico. Sendo assim, ele enfatiza que é importante que a publicidade para criança deva ser combinada com educação. “É mais eficiente ensinar as crianças a lidar com a publicidade e a entender seu funcionamento do que tentar impedir que ela tenha contato com essa mídia”, avalia.

Claudio Leone, médico pediatra e livre docente em Pediatria Social, que concluiu as apresentações do Fórum, lembrou que houve ao longo dos últimos 50 anos um processo de transição alimentar, no qual se deixou progressivamente para trás a desnutrição e se foi caminhando para o excesso de peso, fato que começou a ser observado principalmente nos países desenvolvidos, com mais evidência nos EUA e América do Norte. Ao longo desse processo, ele esclarece que inúmeros culpados foram sendo identificados na questão da obesidade.

O especialista diz que há, portanto, inúmeros fatores, determinantes ou associados, relacionados à obesidade. “Mas a despeito de termos conhecimento de todos esses fatores, a obesidade continua crescendo”, lamenta o pediatra, ressaltando que é imprescindível vários esforços em conjunto para mudar esse cenário. “Soluções existem e são passíveis de serem aplicadas, contudo a única maneira de conseguir sucesso será quando realmente conseguirmos integrar todos os setores da sociedade em torno desse objetivo comum, que é o combate à obesidade. E esse é um grande desafio hoje para a SPSP”, finalizou Leone.