Exposição a Poluentes é Causa de Internação por Doenças Respiratórias?

Exposição a Poluentes é Causa de Internação por Doenças Respiratórias?

SPSP – Sociedade de Pediatria de São Paulo
Texto divulgado em 02/07/2019

 

Luiz Fernando Costa Nascimento
Autor correspondente. E-mail: luiz.nascimento@pq.cnpq.br (L.F.C. Nascimento).
Universidade de Taubaté, Taubaté, SP, Brasil.

Estudo realizado na Universidade de Taubaté, em Taubaté, São Paulo, buscou identificar associação entre exposição a poluentes do ar (mais especificamente material particulado fino) e internações por doenças respiratórias em crianças de até 10 anos de idade. Foi possível verificar que a exposição a esse material se associou ao aumento no risco de internação para as meninas, sem ligação significativa para os meninos.

Meninas com menos de 10 anos expostas ao material particulado fino — mistura de partículas líquidas e sólidas em suspensão no ar com diâmetro menor que 2,5 μm cuja composição e tamanho dependem das fontes de emissão1 — apresentaram maior risco de internação por doenças respiratórias do que meninos na mesma faixa etária.

Essa foi a conclusão dos pesquisadores da Universidade de Taubaté, em Taubaté, São Paulo, que analisaram, no período de janeiro de 2012 a dezembro de 2013, dados de internação de crianças menores do que 10 anos de idade residentes na cidade de Cuiabá, capital de Mato Grosso — Estado da Região Amazônica com elevado número de focos de queimadas. Nesse intervalo de tempo, foram internadas 1.165 crianças, sendo 640 do sexo masculino e 525 do sexo feminino, e os dados de poluentes foram estimados pelo Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.

Os pesquisadores afirmam que há fortes evidências de que a exposição a partículas finas costuma estar associada a doenças do aparelho respiratório. Essas partículas incluem sulfatos, nitratos, ácidos, metais e partículas de carbono com vários produtos químicos adsorvidos em suas superfícies. Em relação à fração grossa do material particulado (aquelas com diâmetro entre 2,5 e 10 μm), o fino penetra mais facilmente na casa, é transportado por longas distâncias e, devido ao seu tamanho, pode atingir mais profundamente as estruturas dos pulmões.2

O porquê da diferença entre as respostas à exposição a poluentes do ar entre meninas e meninos ainda não é bem estabelecido. Estudos sugerem que as respostas de saúde à poluição do ar podem diferir entre mulheres e homens e entre meninas e meninos, mas ainda não está claro se a resposta observada é resultado de diferenças biológicas ligadas ao sexo ou a diferenças nos padrões de atividade, coexposições ou até acurácia na medição da exposição. Possivelmente essas diferenças consistem de alguma combinação desses dois fatores — padrões de exposição e resposta biológica.3-5

Os pesquisadores admitem que o estudo tem limitações por terem utilizado dados estimados por modelagem matemática na análise e, também, pela falta de informações sobre as condições de moradia das crianças avaliadas. No entanto, mesmo com essas possíveis limitações, conseguiram identificar o papel da exposição ao particulado fino nas internações de crianças, mas somente nas do sexo feminino, sugerindo que a segmentação por sexo seja realizada em estudos posteriores, pois a análise envolvendo ambos os sexos não se mostrou significativa.

REFERÊNCIAS

  1. Slaughter JC, Kim E, Sheppard L, Sullivan JH, Larson TV, Claiborn C. Association between particulate matter and emergency room visits, hospital admissions and mortality in Spokane, Washington. J Expo Anal Environ Epidemiol. 2005;15(2):153-9. https://doi.org/10.1038/sj.jea.7500382
  2. Pope CA. Epidemiology of fine particulate air pollution and human health: biologic mechanisms and who’s at risk? Environ Health Perspect. 2000;108(Supl. 4):713-23. https://dx.doi.org/10.1289%2Fehp.108-1637679
  3. Clougherty JE. A growing role for gender analysis in air pollution epidemiology. Ciênc Saúde Coletiva. 2011;16(4):2221-38. http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232011000400021
  4. Miller KA, Siscovick DS, Sheppard L, Shepherd K, Sullivan JH, Anderson GL, et al. Long-term exposure to air pollution and incidence of cardiovascular events in women. N Engl J Med. 2007;356(5):447-58. https://doi.org/10.1056/NEJMoa054409
  5. Tuan TS, Venâncio TS, Nascimento LF. Effects of Air Pollutant Exposure on Acute Myocardial Infarction, According to Gender. Arq Bras Cardiol. 2016;107(3):216-22. https://doi.org/10.5935/abc.20160117