Relatora: Dra. Milena De Paulis
Mestre em Pediatria pela Faculdade de Medicina da USP, Médica Assistente do Pronto Socorro do Hospital Universitário USP, Médica do Pronto Atendimento do Hospital Israelita Albert Einstein e Secretária do Depto. Científico de Emergências da SPSP

Quando a criança cai e bate a cabeça, começam as dúvidas e angústias: preciso ligar para o pediatra? Será que levo para o Pronto Socorro? Precisa de RX? Pode dormir?
Essas questões são muito freqüentes, então, vamos tentar esclarecê-las.
Traumatismo crânio-encefálico (TCE) é o nome técnico que se dá quando a criança cai e bate a cabeça. Ele pode ser classificado em leve, moderado ou grave dependendo de como está o exame neurológico da criança, quando avaliada pelo médico.

Por que quando a criança cai, na grande maioria das vezes, bate a cabeça?
Isso ocorre, principalmente, na criança menor de dois anos de idade, quando, a cabeça tem um tamanho quase que proporcionalmente semelhante ao corpo. Assim, toda vez que a criança cai, a cabeça é projetada mais facilmente, por ser mais pesada, o que provoca mais trauma nessa região.

Toda criança que bate a cabeça deve ser levada para o Pronto Socorro?
Não. Quedas triviais não necessitam de avaliação médica imediata.


Quando levar a criança para avaliação médica?
As crianças abaixo de dois anos de idade, devem ser avaliadas com mais cuidado, pois, além de terem, constitucionalmente, os ossos do crânio mais plásticos , ou seja, mais “molinhos”, o que predispõem a lesões dentro do cérebro sem manifestação externa de fratura, não conseguem dizer exatamente o que estão sentindo. Algumas das principais situações que necessitam de avaliação médica de urgência:
- queda da criança menor de 3 meses de idade
- queda de mais de um metro de altura para crianças abaixo de 2 anos de idade  e queda de mais de 1,5 metro nas crianças acima de 2 anos.
- queda de mais de 4 degraus da escada
- acidente com bicicleta sem capacete
- acidente automobilístico com vítimas
- perda da consciência por mais de 1 minuto pós trauma
- presença de galos na cabeça, principalmente na região das têmporas e na região de trás da cabeça
- sangramento pelo ouvido ou nariz

Os vômitos, a dor de cabeça e o sono são sinais preocupantes?
Os vômitos podem acontecer após bater a cabeça e não significar nada mais sério. Eles deverão ser avaliados se, depois da queda, ocorrerem mais do que 5 vezes em uma hora. A dor de cabeça também pode ser normal após o TCE, mas será um alerta se a sua intensidade for aumentando até limitar a atividade da criança. Também é muito freqüente a criança dormir após bater a cabeça ou porque chorou ou pelo próprio stress da queda. Pode-se deixar a criança dormir, mas se for difícil acordá-la, deverá ser feita a avaliação médica.

O RX de crânio é sempre necessário?
O que interessa saber, quando a criança bate a cabeça é se tem ou não coágulo dentro do cérebro, chamado de hematoma. O RX não consegue mostrar isso. O melhor exame para avaliar se houve ou não lesão dentro do cérebro é a tomografia. Mas cuidado! A realização da tomografia não deve ser feita de forma indiscriminada, pois ela não é isenta de malefícios para a saúde da criança, principalmente no que diz respeito à irradiação. Se considerarmos que a criança, pela sua característica exploradora, terá muitos traumas na região da cabeça durante a infância, e que se para todos eles, for realizada tomografia de crânio, a carga acumulada de irradiação será muito grande, e isso, no futuro, poderá aumentar a chance, ainda que pequena, de desenvolver leucemias ou até mesmo tumores cerebrais.

Qual é o período de maior risco para que a criança tenha algum sintoma mais sério após ter sofrido o trauma na região da cabeça?
A grande preocupação após o TCE são os hematomas. Estes podem ser causados por lesão das artérias ou das veias. Quando acontece a lesão da artéria, o sangramento é grande, intenso e causa compressão do cérebro rapidamente, podendo levar a criança à morte. É o que chamamos de hematoma extradural. Nesse caso, a criança é difícil de ser acordada, os vômitos são persistentes e a dor de cabeça progressiva Ele ocorre, mais freqüentemente, até as primeiras 12 horas após o trauma e geralmente, é necessária a cirurgia de emergência.. Quando a lesão ocorre na veia, o sangramento é mais lento e menos intenso. É o que ocorre no hematoma subdural. Nesse caso, a criança vai piorando a cada dia, mas há tempo suficiente para que o neurocirurgião avalie e dê o melhor tratamento para cada caso. A cirurgia pode não ser imediata.

Mas não há motivo de medo ou de superproteger a criança, limitando o seu desenvolvimento normal. O mais importante é a prevenção.  Criança deve sempre estar sob supervisão de um adulto, e as medidas de segurança sempre adotadas, para minimizar o trauma.
Se seu filho caiu, bateu a cabeça, está bem, sem os sintomas descritos acima, não há necessidade de avaliação médica de urgência, e sim, de observação. Na piora do quadro procurar sempre o serviço de emergência.

Tomografia pode ser útil em alguns casos mas deve ser evitado exagero em crianças cujo exame neurologico é normal.

Texto divulgado em 19/07/2012.