Sífilis congênita: comprometimento ocular

Sociedade de Pediatria de São Paulo
Texto divulgado em 11/10/2016


Página da Campanha Outubro Verde – Mês do Combate à Sífilis congênita


Rosa Maria Graziano
Médica Doutora da Divisão de Clínica Oftalmológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP; Presidente do Departamento Científico de Oftalmologia da SPSP

Prevenção à cegueira e baixa acuidade visual infantil constitui-se numa das cinco prioridades do projeto da Organização Mundial de Saúde VISION 2020 – The Right to Sight
http://www.who.int/blindness/partnerships/vision2020/en/ com a finalidade de eliminar a cegueira prevenível ou tratável.

A deficiência visual na infância traz prejuízos importantes no desenvolvimento neuro-psicomotor da criança. A visão é importante no aprendizado de percepções, gestos e condutas que irão determinar o desenvolvimento dos seus comportamentos. São afetados também a autoestima, o desempenho escolar e profissional que requerem um custo pessoal, familiar e social elevado.

As causas de deficiência visual variam de acordo com a região e o nível sócioeconômico. Gilbert e Rahi observaram que, em países em desenvolvimento, 7 a 13% dos casos de deficiência visual são evitáveis, 10 a 58% são tratáveis e 3 a 28% preveníveis.

As causas infecciosas, a catarata congênita e a retinopatia da prematuridade são as causas preveníveis ou tratáveis mais frequentes em países pobres ou em desenvolvimento. Já nos países desenvolvidos as causas de cegueira mais frequentes são a deficiência visual cortical, hipoplasia de nervo óptico e retinopatia da prematuridade.

OUTUBRO é o mês escolhido pela OMS para a campanha de prevenção a cegueira “ Unidos somos mais fortes” e coincide com o “ Outubro Verde “ da prevenção à sífilis.

A sífilis congênita ocorre quando o feto é exposto ao Treponema pallidum após a 16a semana de gestação. Após a infeção inicial ocorre espiroquetemia que tende a ser mais importante entre 2 e 12 semanas após o contágio. É nessa fase que ocorrem as manifestações secundárias, incluindo a uveíte.

A principal manifestação ocular da sífilis congênita é a ceratite intersticial (opacidade e inflamação corneana) que, em conjunto com dentes incisivos anômalos e surdez, são conhecidos como a Tríade de Hutchinson. Outras manifestações incluem: neurite óptica, iridociclite e alterações no fundo de olho caracterizadas por alteração do epitélio pigmentado da retina denominadas de ¨fundo em sal e pimenta¨, aspecto morfológico que não é exclusivo da sífilis congênita, mas também descrito em outras infecções congênitas como rubéola, citomegalovírus e herpes simples.

O diagnóstico é laboratorial e deve-se afastar falsos positivos como HIV, hepatites e doenças do colágeno.

O tratamento em paciente imunocompetentes, sem neurite óptica ou meningite, deve ser feito com penicilina G procaína por 10 dias e, com meningite, com penicilina cristalina por 10 dias. O uso de corticoide é controverso e deve ser feito quando há acometimento do nervo óptico e mácula ou em casos de aumento da resposta inflamatória com antibióticos.
REFERÊNCIAS:
Gilbert C, Rahi J. Magnitude and causes: Visual impairment and blindness in children. In: Johnson GJ, Minassiam DC, Weale RA, West SK. The epidemiology of eye disease. 3 ed Londres: Imperial College Press; 2012.

LITERATURA SUGERIDA:
– Prevenção da cegueira e Deficiência Visual na Infância. Tema oficial do 60º Congresso Brasileiro de Oftalmologia – GO – 2016. Relatores: Keila M de Carvalho e Andrea Zin. Rio de Janeiro: Cultura Médica, 2016.
– Hirata CE, Takiuti JY. Sífilis ocular. In: Alves MR, Nakashima Y, Tanaka T. Clínica Oftalmológica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2013.