Vitamina D e fotoproteção

Vitamina D e fotoproteção

SPSP – Sociedade de Pediatria de São Paulo
Texto  divulgado em 18/12/2019

 

O papel da vitamina D na prevenção de raquitismo e osteoporose é muito bem estabelecido.1,2 Mais recentemente, a deficiência de vitamina D tem sido associada a outras doenças, como distúrbios imunológicos, metabólicos e neoplasias malignas, porém esses achados ainda são controversos.2-4

A radiação ultravioleta B (UVB) compreende 5-10% de todo o espectro de radiação ultravioleta (UV) que atinge a superfície da terra, sendo a responsável pela síntese de vitamina D3 pela pele.2 Entretanto, a exposição à radiação UV também está associada a potenciais efeitos nocivos, como queimadura solar, fotoenvelhecimento e fotocarcionogênese. Neoplasias malignas da pele, como o carcinoma basocelular, o carcinoma espinocelular e o melanoma têm como principal fator de risco para seu desenvolvimento a exposição solar na infância e na adolescência, sobretudo à radiação UVB.5

A incidência mundial elevada de hipovitaminose D gerou debates sobre a importância da exposição solar para atender às necessidades preconizadas. Ao mesmo tempo, os benefícios do uso regular de protetores solares são bem estabelecidos, sobretudo para prevenir os potenciais efeitos nocivos causados pela exposição à radiação UV. No entanto, há preocupações se seu uso poderia interferir na produção de vitamina D pela pele.2

 

Importância da Vitamina D

A vitamina D é um pré-hormônio com participação no metabolismo do cálcio e do fósforo. Sua deficiência, em crianças, está associada ao desenvolvimento de raquitismo.6 Vários estudos têm sugerido outras possíveis ligações da deficiência de vitamina D, como doenças infecciosas, autoimunes, diabetes mellitus tipo 1 e 2, doenças cardiovasculares, doença mental e neoplasias. Entretanto, essas outras associações ainda são controversas.2-4

Fontes de vitamina D

A principal fonte de vitamina D é a produção, por meio da absorção da radiação UVB a partir da pele. Após metabolização no fígado e nos rins, há formação do metabólito mais ativo, a 1,25 diidroxivitamina D ou cacitriol, responsável por estimular a absorção de cálcio e fosfato pelo intestino.

Vários fatores influenciam a síntese de vitamina D a partir do 7-de-hidrocolesterol na pele, sendo tanto intrínsecos – relacionados ao indivíduo – como extrínsecos. Os seguintes fatores são exemplos que estão associados à redução da síntese de vitamina D pela pele: aumento da latitude, menor altitude, fototipo de pele mais alto, pele mais bronzeada, diminuição da concentração de 7-de-hidrocolesterol na pele (idosos, vítimas de queimaduras), cobertura da pele por roupas, aumento da distância do tempo em relação ao meio-dia (início da manhã, final da tarde), uso de protetor solar.

Outra fonte de vitamina D é a alimentação, sendo fontes mais significativas os peixes de água fria (como salmão, atum, sardinha e cavala), gema de ovo e cogumelos.1,2,7

Vitamina D: avaliação e para quem solicitar

A avaliação da vitamina D é realizada por meio da dosagem sérica de 25-OH-vitamina D (colecalciferol, calciferol, vitamina D3). Recomenda-se, habitualmente, jejum de 3 horas para realização do exame.

Não há consenso sobre a definição do ponto de corte para deficiência de vitamina D. Os critérios mais utilizados estabelecem a hipovitaminose D utilizando diferentes valores, como menor que 12 e menor que 20ng/ml.6,8,9

Não se recomenda a dosagem de vitamina D para a população em geral, mas somente para indivíduos com risco de desenvolver hipovitaminose D, tais como: suspeita de raquitismo, obesidade, alergia à proteína do leite de vaca, dieta vegetariana ou vegana, síndromes de má-absorção (como fibrose cística, doença inflamatória intestinal e doença celíaca), insuficiência renal ou hepática, uso de drogas que interfiram no metabolismo da vitamina D (como anticonvulsivantes, corticoides, antifúngicos) e regime de fotoproteção rigorosa.10

Fotoproteção e vitamina D

Estudos em ambientes controlados demonstram que o uso de protetor solar reduz a produção de vitamina D.11-13 Entretanto, o uso de protetor solar, da forma como geralmente é feita pela maioria das pessoas, não costuma interferir na produção de vitamina D pela pele.

Acredita-se que isto ocorra porque os indivíduos, usualmente, utilizam quantidade de protetor solar em menor quantidade do que a recomendada, além de não reaplicarem com a frequência necessária. Outros autores sugerem, ainda, que os indivíduos que utilizam regularmente protetor solar costumam se expor mais à radiação solar.14-16

Recomendações

Considerando-se os riscos relacionados à exposição solar para a pele, sobretudo na infância, não se recomenda exposição solar intencional ao sol com o objetivo de produção de vitamina D.

Em casos de deficiência de vitamina D, a opção segura de tratamento é a suplementação por via oral.2,7

Em menores de seis meses de idade, deve-se evitar exposição intencional ao sol. Em situações de exposição, orienta-se buscar lugares com sombra, vestir os bebês com roupas compridas e utilizar chapéus.

Recomenda-se uso de protetor solar para todas as crianças acima de seis meses de idade. O produto deve ter proteção de amplo espectro (contra UVB e UVA), FPS de no mínimo 30 e deve ser de uso infantil. Deve-se aplicar o protetor solar (em quantidade generosa) pelo menos 15 minutos antes da exposição solar e reaplicá-lo a cada duas horas ou antes, caso haja maior transpiração ou imersão na água.

Além disso, é indicado ainda que se evite exposição solar intencional ao sol das 10h às 15h e que as crianças utilizem medidas de proteção solar adicionais, como roupas confortáveis, de tecido com trama apertada e, se possível, com tratamento que aumente o fator de proteção ultravioleta (FPU); além de chapéus de aba larga e circular e óculos de sol com adequada proteção contra a radiação ultravioleta.7

 

Relatores
Luciana de Paula Samorano
Selma Hélène
Departamento de Dermatologia da Sociedade de Pediatria de São Paulo

 

Referências

  1. Holick MF. Vitamin D deficiency. N Engl J Med. 2007;357:266-81.
  2. Passeron T, Bouillon R, Callender V, Cestari T, Diepgen TL, Green AC, et al. Sunscreen photoprotection and vitamin D status. Br J Dermatol. 2019;181:916-31.
  3. Autier P, Mullie P, Macacu A, Dragomir M, Boniol M, Coppens K, et al. Effect of vitamin D supplementation on non-skeletal disorders: a systematic review of meta-analyses and randomised trials. Lancet Diabetes Endocrinol. 2017;5:986-1004.
  4. Manson JE, Cook NR, Lee IM, Christen W, Bassuk SS, Mora S, et al. Vitamin D supplements and prevention of cancer and cardiovascular disease. N Engl J Med. 2019;380:33-44.
  5. Moan J, Grigalavicius M, Baturaite Z, Dahlback A, Juzeniene A. The relationship between UV exposure and incidence of skin cancer. Photodermatol Photoimmunol Photomed. 2015;31:26-35.
  6. Munns CF, Shaw N, Kiely M, Specker BL, Thacher TD, Ozono K, et al. Global consensus recommendations on prevention and management of nutritional rickets. J Clin Endocrinol Metab. 2016;101:394-415.
  7. Schalka S, Steiner D, Ravelli FN, Steiner T, Terena AC, Marçon CR, et al. Brazilian consensus on photoprotection. An Bras Dermatol. 2014;89:1-74.
  8. Wagner CL, Greer FR; American Academy of Pediatrics Section on Breastfeeding; American Academy of Pediatrics Committee on Nutrition. Prevention of rickets and vitamin D deficiency in infants, children, and adolescents. Pediatrics. 2008;122:1142-52.
  9. Holick MF, Binkley NC, Bischoff-Ferrari HA, Gordon CM, Hanley DA, Heaney RP, et al.  Evaluation, treatment, and prevention of vitamin D deficiency: an Endocrine Society clinical practice guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2011;96:1911-30.
  10. Maeda SS, Borba VZ, Camargo MB, Silva DM, Borges JL, Bandeira F, et al. Recommendations of the Brazilian Society of Endocrinology and Metabology (SBEM) for the diagnosis and treatment of hypovitaminosis D. Arq Bras Endocrinol Metabol. 2014;58:411-33.
  11. Matsuoka LY, Ide L, Wortsman J, MacLaughlin JA, Holick MF. Sunscreens suppress cutaneous vitamin D3 synthesis. J Clin Endocrinol Metab. 1987;64:1165-8.
  12. Matsuoka LY, Wortsman J, Hollis BW. Use of topical sunscreen for the evaluation of regional synthesis of vitamin D3. J Am Acad Dermatol. 1990;22:772-5.
  13. Holick MF, Matsuoka LY, Wortsman J. Regular use of sun- screen on vitamin D levels. Arch Dermatol. 1995;131:1337-9
  14. Marks R, Foley PA, Jolley D, Knight KR, Harrison J, Thompson SC.  The effect of regular sunscreen use on vitamin D levels in an Australian population. Results of a randomized controlled trial. Arch Dermatol. 1995;131:415-21.
  15. Bech-Thomsen N, Wulf HC. Sunbathers’ application of sunscreen is probably inadequate to obtain the sun protection factor assigned to the preparation. Photodermatol Photoimmunol Photomed. 1992-1993;9:242-4.
  16. Norval M, Wulf HC. Does chronic sunscreen use reduce vitamin D production to insufficient levels? Br J Dermatol. 2009;161:732-6.