O “umbigo” caiu! O que eu faço agora, doutor?

O “umbigo” caiu! O que eu faço agora, doutor?

Episódio 4: O “umbigo” caiu! O que eu faço agora, doutor?

Mãe e filha entraram no consultório para tirar uma dúvida crucial. No caso, a filha era a mãe do paciente – um lindo recém-nascido de 8 dias de vida, que estava no colo da avó (a mãe da mãe).
A mais importante e angustiante das dúvidas, para aquela avó, foi a pergunta que deu início à nossa conversa: – Doutor, eu até trouxe comigo, neste vidrinho aqui (e mostrou o recipiente). O umbigo do meu netinho caiu hoje… ele estava por um fio e depois do banho, ao colocar a fralda, ele caiu.
Interajo, naturalmente, dizendo: – Caiu no tempo habitual…
Não houve oportunidade para mais comentários, logo, a avó emendou:
– E, agora, doutor, o que vamos fazer? Minha filha queria jogar o “coitadinho” no lixo. Eu não deixei.
– A senhora está se referindo ao coitadinho do coto umbilical, é claro! Tentei fazer uma brincadeira para descontrair, mas fui malsucedido.
– Claro, doutor!  Como é que se joga no lixo uma “coisa viva” que é do meu neto?!
Nós pediatras costumamos vivenciar episódios assim. A preocupação quanto ao que fazer com o coto umbilical reflete o que está no imaginário popular, em especial, das gerações mais velhas.
O rol de simpatias é variado: o “umbigo” deveria ser enterrado nos pés de uma roseira para que a criança cresça bonita e saudável; deveria ser enterrado junto a uma bananeira para que o bebê tenha muito dinheiro no futuro; se enterrar junto a uma porteira de fazenda, será fazendeiro; se jogar no mar, serámarinheiro; se guardar com você, o seu filho ficará sempre por perto; se jogar no lixo, um rato pode pegar o “umbigo” e vai se tornar ladrão quando crescer.
Os mais novos já se desvencilham das crenças e buscam razões baseadas na ciência e no seu contínuo progresso, para justificar a guarda do cordão umbilical, pois pensam que nele estão células que no futuro poderão ajudar o próprio indivíduo em alguma enfermidade.
O “umbigo” simboliza a dependência do bebê à sua mãe – pelo cordão umbilical recebe alimento, oxigênio, enfim, tudo que necessita. Há uma sensação de controle, de segurança. O corte do cordão rompe esse mundo idealizado, como se agora o filho ficasse desprotegido e entregue a sua própria sorte, aqui fora. É a primeira de muitas outras separações necessárias para o desenvolvimento desse outro ser, que é único, que só vai ganhar alteridade e maturidade, exatamente nesse processo de individuação.
O “umbigo”, que na verdade é a cicatriz restante do corte do cordão umbilical, é a ferida dessa separação; ele lembra os pais, de forma mais intensa as mães, dessa impotência de controle. Anuncia de forma estridente que aquele bebê não será mais deles, mas do mundo. Pode ser por isso que pareça ser tão difícil lidar com o umbigo, pois ele reflete a complexidade que envolve o cuidar de uma vida.
Ao final, quem caiu não foi o “umbigo”, ele é o que fica. Quem caiu foi o resquício do cordão umbilical que fora cortado ao nascimento – o coto umbilical mumificado, um tecido já morto.
O “universo umbilical” é cheio de mitos, medos e histórias (como a do “mal dos sete dias”) e de polêmicas, até teológicas, como a que envolve a pintura de Adão feita por Michelangelo na Capela Sistina. Nesta arte, Adão tem umbigo, o que foi criticado pelos teólogos, pois, pela narrativa bíblica, ele não foi gerado em ventre de mulher, portanto não houve placenta.
Essa cicatriz no corpo humano e na de todos os mamíferos (com exceção do ornitorrinco e do canguru), por estar na parte central do corpo, remete à ideia de centralidade. Embora a palavra signifique protuberância, ele pode ser fundo, representando uma concavidade. Apenas 10% dos umbigos são proeminentes, o restante é mais fundo – o que é esteticamente mais aceito.
A seguir desbravaremos um pouco mais deste universo curioso.

Relator:
Fernando Manuel Freitas de Oliveira
Membro da Comissão de Ensino e Pesquisa da Sociedade de Pediatria de São Paulo.
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da Sociedade de Pediatria de São Paulo.

A limpeza da região umbilical

A limpeza da região umbilical é importante para evitar infecção. Logo nos primeiros dias de vida, o cordão é gelatinoso, depois seca progressivamente, mumifica entre o 3º ou 4º dia e cai habitualmente entre o 6º e 15º dia de vida.A utilização de antissépticos no coto umbilical ainda é polêmica na literatura, mas sabe-se que o uso da clorexidina 0,5% é eficaz na redução da colonização e da infecção, mas atrasa a mumificação. Já o uso do álcool 70% acelera a mumificação, mas não interfere na colonização.

A Organização Mundial da Saúde recomenda manter a região do coto sempre seca para facilitar a cicatrização e sempre limpa para evitar infecção. A limpeza do coto deverá ser realizada várias vezes ao dia, principalmente após troca de fraldas, com água e sabonete neutro. Depois de secá-lo bem, o uso de um cotonete com álcool 70% em todo umbigo ajudará na cicatrização.

Importante salientar que o produto deve sempre ser armazenado em frasco de uso individual. Situações de preocupação incluem: o atraso na queda do coto umbilical, após a terceira semana de vida, que pode ser manifestação de outras doenças como o hipotireoidismo congênito e as imunodeficiências primárias; a infecção, caracterizada pela presença de secreção purulenta na região do coto, edema e hiperemia da parede abdominal. Nesses casos a avaliação do pediatra é imprescindível para o diagnóstico e conduta adequados. 

Maria Regina Bentlin
Presidente do Departamento Científico de Neonatologia da Sociedade de Pediatria de São Paulo

Foto: aynur_sib | depositphotos.com.br