Celebrar conquistas, combater a desinformação e proteger o futuro

Celebrar conquistas, combater a desinformação e proteger o futuro

O Dia da Imunização, celebrado em 9 de junho, nos convida a recordar uma das maiores conquistas da Medicina e da Saúde Pública: as vacinas. Mas essa data também traz um alerta importante. Muitas doenças que hoje parecem distantes deixaram de fazer parte do cotidiano de muitas famílias porque gerações inteiras foram vacinadas. Quando o número de vacinados cai, essas doenças podem retornar.

A história da vacinação começou há mais de dois séculos, com a vacina contra a varíola. Edward Jenner desenvolveu essa vacina no final do século XVIII. A partir daí, a ciência iniciou uma revolução silenciosa. O objetivo era prevenir doenças antes que causassem sofrimento, sequelas e mortes.

No Brasil, a vacinação contra a varíola foi uma das primeiras grandes experiências de imunização em massa. Com o passar do tempo, o país criou instituições fundamentais para a produção e distribuição de vacinas, como a Fiocruz/Bio-Manguinhos e o Instituto Butantan. Essas instituições ainda desempenham um papel essencial na saúde pública brasileira.

Um dos maiores marcos dessa trajetória foi a criação do Programa Nacional de Imunizações (PNI) em 1973. Desde então, o Brasil construiu um dos maiores programas públicos de vacinação do mundo, oferecendo vacinas gratuitamente pelo SUS para crianças, adolescentes, gestantes, adultos, idosos e grupos com necessidades especiais. Esse é um patrimônio da população brasileira: um programa que garante que vacinas gratuitas, seguras e eficazes cheguem a milhões de pessoas em todas as regiões do país.

O calendário de vacinação vem mudando muito ao longo das décadas. Antes, havia poucas vacinas disponíveis; agora, temos proteção contra várias doenças graves. Além do calendário do PNI, que define as vacinas oferecidas gratuitamente na rede pública, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e a Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP) oferecem informações para médicos e famílias, incluindo recomendações complementares com base em idade, condições de saúde, riscos individuais e disponibilidade de vacinas na rede privada.

É muito comum que algumas famílias tenham dúvidas diante de tanta informação. O calendário vacinal atual inclui mais vacinas do que no passado, mas isso não sobrecarrega o sistema imunológico. Pelo contrário, todos os dias, desde o nascimento, as crianças entram em contato com milhares de micro-organismos e partículas do ambiente. As vacinas apresentam apenas pequenas partes dos agentes infecciosos ou versões enfraquecidas ou inativadas deles, suficientes para ensinar o corpo a se defender. Estudos mostram que receber mais de uma vacina ao mesmo tempo é seguro e não causa problemas ou “enfraquece” a imunidade.

Um exemplo recente de avanço é a vacina contra o Vírus Sincicial Respiratório (VSR), recomendada para gestantes. O VSR é uma das principais causas de bronquiolite e internação em bebês pequenos. Ao vacinar a gestante, transferimos anticorpos para o bebê durante a gestação, oferecendo proteção nos primeiros meses de vida, quando ele é mais vulnerável. Essa conquista mostra que a vacinação continua evoluindo para responder a problemas reais na pediatria.

Quando falamos de vacinas, devemos lembrar de doenças que muitos pais e mães jovens quase não conhecem mais. A poliomielite, por exemplo, podia causar paralisia permanente. O tétano pode surgir a partir de ferimentos e continua sendo uma doença grave. A difteria, hoje rara, pode comprometer a respiração e causar complicações severas. Essas doenças não desapareceram porque ficaram “fracas” ou porque simplesmente deixaram de existir; elas foram controladas porque a vacinação funcionou.

As vacinas também são essenciais no combate a epidemias e pandemias. Elas reduzem casos graves, internações e mortes, além de proteger os serviços de saúde contra sobrecarga. A experiência recente com a Covid-19 lembrou ao mundo que a ciência, a vigilância em saúde e a vacinação são ferramentas indispensáveis para responder a emergências sanitárias.

Outro ponto importante é entender que a vacinação não é apenas uma decisão individual. Quando uma pessoa se vacina, ela também contribui para proteger quem está ao seu redor: bebês que ainda não têm idade para receber algumas vacinas, pessoas com imunidade baixa, idosos e pacientes com doenças crônicas. Por isso, manter altas taxas de vacinação é um compromisso coletivo. O Ministério da Saúde considera a vacinação uma das estratégias mais eficazes para preservar a saúde da população e reduzir a disseminação de doenças infecciosas na comunidade.

Ao mesmo tempo, vivemos uma época em que informações falsas circulam rapidamente. Fake news sobre vacinas podem parecer convincentes, especialmente quando exploram o medo dos pais. Muitas vezes distorcem dados, ignoram evidências ou atribuem às vacinas problemas que não têm relação com elas. A hesitação vacinal deve ser recebida com escuta, orientação clara e informação confiável. Em caso de dúvida, a família deve conversar com o pediatra e buscar fontes reconhecidas, como sociedades científicas, o Ministério da Saúde e serviços de vacinação.

No Brasil, poucas imagens representam tão bem essa história quanto o Zé Gotinha. Criado em 1986, ele se tornou símbolo da vacinação infantil, ajudando a conectar as campanhas às crianças e suas famílias. Em 2026, o Zé Gotinha completará 40 anos, lembrando que uma comunicação clara, afetiva e confiável também faz parte da Saúde Pública.

Neste Dia da Imunização, a principal mensagem é simples: “Vacinas salvam vidas!” Vacinar é proteger. Proteger a criança, a família, a comunidade e as futuras gerações. Aproveitem a data para conferir a caderneta de vacinação de toda a família e atualizar as doses pendentes – de crianças, adolescentes, gestantes, adultos e idosos. Em caso de dúvida, procurem um médico da sua confiança.

As vacinas são vítimas do seu próprio sucesso: quando funcionam bem, tornam as doenças invisíveis. Mas é por isso que precisamos continuar vacinando. Celebrar a imunização é reconhecer o passado, combater a desinformação, cuidar do presente e proteger o futuro.

Relatores

Tim Müller
Pediatra Alergista e Imunologista
Membro do Departamento Científico de Imunizações da SPSP
Presidente do Departamento Científico de Alergia e Imunologia da SPSP

Renato Kfouri
Pediatra Infectologista
Membro da Câmara Técnica Assessora do Programa Nacional de Imunizações
Presidente do Departamento Científico de Imunizações da SPSP