As bebidas alcoólicas apresentam como seu principal componente o etanol, ou álcool etílico. A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que o álcool etílico é a substância psicoativa mais consumida em todo o mundo e de grande importância e preocupação para a saúde pública do planeta.
Como qualquer substância psicoativa, ao entrar no corpo o álcool atua no cérebro e pode mudar a forma como a pessoa pensa, sente, percebe ou se comporta.
Pela OMS, o uso nocivo do álcool é um dos principais fatores de risco para a saúde da população mundial, incluindo riscos para a saúde materno-infantil, doenças infecciosas (vírus da imunodeficiência humana, hepatite viral, tuberculose), doenças não transmissíveis, saúde mental, lesões e intoxicações. Responsável, também, por grande número de mortes e diminuição da expectativa de vida.
Quando consumido pelas mulheres grávidas, o etanol atravessa a placenta e pode levar a problemas no desenvolvimento e crescimento do embrião/feto, causando os chamados Transtornos do Espectro Alcoólico Fetal. São condições permanentes, sem tratamento, que se manifestam por inúmeras alterações, como anomalias físicas e congênitas, atraso no crescimento, alterações cognitivas, comprometimento da linguagem, dificuldades de aprendizado, distúrbios de comportamento, grande vulnerabilidade social e dependência de terceiros.
A história do homem e o consumo de bebidas alcoólicas caminham juntos. Fontes arqueológicas evidenciam que as bebidas alcoólicas surgiram por volta de 7.000–6.600 a.C., de forma acidental e natural, quando leveduras, do meio ambiente, fermentaram açúcares presentes em cereais, frutas ou mel, dando origem ao etanol.
Ao contrário das bebidas fermentadas, as bebidas destiladas vêm de um processo tecnológico, não espontâneo, pela manipulação das primeiras. A destilação surgiu entre os séculos I e IX d.C., para fins medicinais e alquímicos, e apenas no século XIII d.C. começou a ser usada para fins recreativos, sociais e comerciais.
Além de serem classificadas em fermentadas e destiladas, as bebidas também podem ser denominadas de acordo com a concentração de álcool etílico/etanol que contêm. Embora essa classificação possa variar de acordo com a legislação dos diversos países, a maioria deles considera “bebidas alcoólicas” aquelas que contêm 0,5% ou mais de álcool por volume, “não alcoólicas/sem álcool” as que têm menos de 0,5% de álcool por volume, e as “zero álcool” as com menos de 0,05% de álcool por volume.
Sugestão de classificação e das características das bebidas encontra-se no quadro 1.
Quadro 1. Sugestão de definição e comparação entre os diferentes tipos de bebidas
| Categoria | ABV | Processo de produção | Exemplos | Relevância clínica |
| Fermentadas | 3%-15% | Fermentação de açúcares | Cerveja, vinho, hidromel, chicha, espumantes, kombucha alcoólica | Não indicado para população vulnerável* |
| Espirituosas (Destiladas) | ≥ 15% (geralmente 35%-50%) | Destilação de bebidas fermentadas | Whisky, gin, vodka, rum, cachaça, tequila, conhaque, brandy, grappa, aguardentes de frutas | Não indicado para população vulnerável* |
| Baixo teor alcoólico (Low-alcohol) | 0,05-1,2% | Desalcoolização | Vinho desalcoolizado | Não indicado para população vulnerável* |
| Não alcoólicas (non-alcoholic beverage) | < 0,5% | Desalcoolização Fermentação controlada | Cerveja não alcoólica, kombucha, vinho desalcoolizado | Não indicado para população vulnerável* |
| Zero álcool (Alcohol-free) | < 0,05% | Desalcoolização completa | Cerveja | Pode ser uma alternativa mais segura para gestantes, motoristas, adolescentes, indivíduos em uso de medicamentos incompatíveis com o álcool |
| Light | < 30% de álcool do produto similar da mesma marca | Não indicado para população vulnerável* |
ABV – Alcohol by Volume (concentração de álcool/volume)
* População vulnerável – menores de 18 anos, grávidas, pessoas com condições de saúde que possam ser prejudicadas pelo álcool, uso de medicamentos incompatíveis com o álcool, motoristas.
Fonte: elaborado pela autora (MAM).
Quanto maior a concentração de álcool em uma bebida, piores os efeitos a que ele leva. Segundo a OMS, não existe nenhum nível seguro de seu consumo em relação a várias doenças, incluindo câncer, doenças imunológicas, cardiovasculares e os Transtornos do Espectro Alcoólico Fetal.
Temos que ter ciência de que bebida “não alcoólica” é diferente de “0% de álcool”. Mesmo sendo chamada de “não alcoólica”, pode conter traços de etanol resultantes da fermentação. A diferença entre 0,0% e 0,5% pode parecer pequena do ponto de vista percentual, mas é clinicamente relevante em situações em que a recomendação é de exclusão total de etanol, como na gestação e nos transtornos por uso de álcool.
Compreender as diferenças entre “bebidas alcoólicas”, “não alcoólica/sem álcool” e “zero álcool” é fundamental, a fim de escolhermos o que queremos e/ou podemos beber com o objetivo de reduzir os danos à nossa saúde e, muitas vezes, à saúde dos outros, como do embrião/feto.
Devemos nos acostumar a ler os rótulos das bebidas, para verificarmos a concentração do álcool nelas contido e, se possível, consultarmos a ficha técnica do seu fabricante. Temos a responsabilidade de prevenirmos e reduzirmos os malefícios que as bebidas alcoólicas podem causar.
Relatora:
Maria dos Anjos Mesquita
Médica Neonatologista
Mestre em Ciências da Saúde
Vice-Presidente do Núcleo de Estudos dos Transtornos do Espectro Alcoólico Fetal (TEAF) da SPSP


