Como apoiar uma família após a morte de uma criança ou de um adolescente

Como apoiar uma família após a morte de uma criança ou de um adolescente

Pensar e falar sobre a morte é sempre uma tarefa penosa e difícil. Mais difícil ainda é falar do sofrimento causado pela morte de uma criança, tanto em sua família quanto em seu entorno. No entanto, é justamente o falar e refletir sobre essa dor, como veremos no decorrer do texto, que nos leva a uma possibilidade de lidar melhor com essa situação tão estressante.

O suporte teórico aqui apresentado baseia-se nas ideias de Cyrulnik, neuropsiquiatra, etólogo e psicanalista. Ainda criança, ele sobreviveu a um campo de concentração nazista e, mais tarde, já em liberdade, desenvolveu a Teoria da Resiliência. Nessa teoria, propõe que o trauma não é um destino, não é um “determinismo psicológico”, e muito menos um evento que condena alguém a uma vida futura de sofrimento. A resiliência é entendida como um processo de cicatrização dessa ferida, no qual cérebro e psique têm uma capacidade extraordinária de reorganização, desde que encontrem um ambiente propício.

Reforçando: a resiliência deve ser compreendida como a capacidade de retomar o desenvolvimento psíquico e o prazer de viver após um trauma, restabelecendo a convivência entre a dor da ferida e prazer de voltar a viver.

O autor trabalha com o conceito de Biologia do Apego, isto é, a ideia de que o contorno social altera a química cerebral. Palavras adequadas e gestos de cuidado influenciam o corpo e a própria resposta biológica ao trauma. O afeto e a palavra têm poder regulador sobre hormônios e neurotransmissores, organizando o cérebro, que não se desenvolve sozinho e depende sempre da relação com o outro. Como ele afirma, “não existe vida psíquica” sem encontro. Todo ser humano é biologicamente dependente de outro, é o vínculo que une o cérebro ao corpo.

Assim, o trauma desorganiza, mas não determina essa desorganização. Paradoxalmente, é essa desorganização que pode impulsionar a reparação biológica necessária. O luto, portanto, é sempre necessário. Falar do sofrimento também é fundamental, pois é por meio da fala e da escuta que se constrói o acolhimento do outro.

A morte deve ser encarada como um evento inexorável da vida e, portanto, precisa ser incorporada à existência. Fica claro que o luto pela perda de um filho não é um estado de “cura”, mas um processo de metamorfose. A dor da perda não é algo a ser simplesmente superado, mas algo que possibilita a retomada da vida cotidiana. Em outras palavras, é essa dor que permite a reconstrução do viver após a ruptura: o “fio” da vida precisa ser retomado.

Não se trata de esquecer, mas de reintegrar a perda à história da família. A resiliência não é uma característica individual, mas um fenômeno que acontece entre as pessoas. É exatamente o ambiente social, constituído por amigos e comunidade, que irá servir como um porto seguro para que a morte da criança seja expressa de uma maneira a não trazer em si um julgamento prévio que possa prolongar o sofrimento de todos.

O luto torna-se mais suportável à medida que o trauma deixa de ser um evento sem sentido e passa a ser transformado em narrativa dos próprios envolvidos. Dar nome à dor, falar sobre o filho falecido, recordar histórias e manter a memória viva são aspectos essenciais. O silêncio imposto pela sociedade, o tabu da morte infantil, constitui nesse sentido um “segundo trauma”, pois dificulta o processo de resiliência.

 

Resumo do pensamento:

  • “O encontro humano é o principal agente de cura.”
  • O trauma não é destino, mas um “azar da vida” que não determina o fim. É real e doloroso, mas não condena a pessoa a ser vítima para sempre. A resiliência é sempre a capacidade de retomar desenvolvimento apesar da ferida.
  • É possível ser feliz mesmo carregando uma memória de dor.
  • Ninguém se recupera sozinho. Há sempre a necessidade de um “Tutor de Resiliência”, uma figura (professor, vizinho, avô ou até mesmo um personagem de um livro) que proporciona um olhar de segurança. O tutor é o ponto de apoio indispensável para que se dê o processo de resiliência.
  • Eventos traumáticos, como a morte de uma criança, podem se tornar um “silêncio assassino”. A transformação do trauma em narrativa é fundamental para a elaboração. Quando a criança consegue desenhar, escrever ou falar sobre sua dor ela deixa de ser escrava do evento e passa a ser autora da sua própria narrativa.
  • O estresse traumático “atrofia” áreas cerebrais ligadas à memória e à emoção, enquanto um ambiente afetuoso e seguro atua como um “nutriente biológico”, favorecendo a recuperação.
  • A resiliência resulta do encontro entre a vontade de viver, o apoio de um tutor e a capacidade cultural de acolher e escutar a dor.
  • “O corpo fala o que a boca cala.”
  • Cérebro social: O isolamento emocional compromete o funcionamento cerebral, enquanto o vínculo seguro estimula novas conexões.
  • Um ambiente seguro e relações de apoio (Tutor de Resiliência) podem impedir que predisposições genéticas negativas se manifestem.
  • O encontro humano é o principal agente de cura.

Recomendações finais:

  • Evitar o “fantasma”: há o risco de transformar o filho que partiu em um mito intocável, o que pode fazer com que os irmãos sobreviventes se sintam invisíveis ou menos amados.
  • Sinceridade parcial: a verdade deve ser dita às crianças sobre a morte, com linguagem adaptada à idade, mas o fato nunca deve ser escondido. O não dito tende a gerar angústias profundas.
  • A perda de um filho representa uma ruptura no real, que pode ser “costurada” pela palavra e pela solidariedade, permitindo que a vida volte a fluir de forma saudável.

 

Relator:

Eduardo Goldenstein
Membro do Núcleo de Estudos de Saúde Mental da SPSP