A juventude diante de um mundo incerto – desafios a enfrentar

A juventude diante de um mundo incerto – desafios a enfrentar

Cada geração recebe um mundo imperfeito. A geração atual herda um mundo extraordinariamente conectado, tecnologicamente poderoso e, ao mesmo tempo, profundamente instável. Reconhecer essa realidade é o primeiro passo para preparar os jovens para um futuro que ainda está sendo inventado.

Durante grande parte do século 20 havia um roteiro relativamente previsível para a entrada na vida adulta. A educação preparava para uma profissão; a profissão oferecia estabilidade; e a estabilidade permitia planejar o futuro. Esse percurso nunca foi perfeito, mas funcionava como referência para milhões de pessoas. Hoje, esse roteiro tornou-se incerto.

A digitalização da economia, a automação e o avanço acelerado da inteligência artificial estão remodelando profissões inteiras e alterando a própria natureza do trabalho. Jovens que ingressam no mercado encontram um cenário em constante mutação, no qual muitas ocupações atuais podem desaparecer ou se transformar radicalmente nas próximas décadas. Em vez de se prepararem para uma carreira relativamente estável, muitos precisam aprender a viver em um ambiente de mudanças permanentes.

Essa transformação é econômica, moral e existencial. O filósofo Hans Jonas advertia que o poder tecnológico da humanidade cresce mais rápido do que nossa capacidade de prever suas consequências. Quanto maior o poder tecnológico, maior deveria ser também a responsabilidade ética diante do futuro. Uma advertência que continua relevante nos dias atuais.

Ao mesmo tempo, vivemos em uma sociedade marcada pela aceleração – uma era de hiperatividade e desempenho permanente, na qual indivíduos são constantemente pressionados a produzir, adaptar-se e mostrar resultados. Para os jovens, isso cria um paradoxo: há mais possibilidades do que nunca, mas também mais ansiedade e desorientação.

Outro elemento desse cenário é a “crise de referências”: Instituições como escola, família, religião, política, enfrentam perda de autoridade simbólica. Em seu lugar surgem outras, fragmentadas e muitas vezes efêmeras, mediadas por fluxos incessantes de informação nas redes sociais. A identidade contemporânea precisa ser construída em meio a múltiplos horizontes de sentido – entendimento de que a vida e o mundo são compreendidos através de diferentes interpretações e significados, o que torna o processo de amadurecimento mais complexo.

A cultura digital também altera nossa relação com o tempo. A lógica do imediato – marcada por respostas rápidas, recompensas instantâneas e ciclos curtos de atenção – tende a enfraquecer a disposição para processos mais longos de formação intelectual e profissional. Projetos de vida, que exigem paciência e continuidade, tornam-se mais difíceis de sustentar em um ambiente dominado pela urgência.

Diante desse panorama, o Dia Mundial da Juventude, celebrado em 30 de março, se torna um convite à reflexão coletiva. Investir na juventude significa ampliar oportunidades educacionais, oferecer cursos de capacitação e criar, também, condições para que os jovens encontrem referências, construam sentido e possam enfrentar um futuro incerto com responsabilidade e esperança. Fica a pergunta: para que mundo estamos preparando os jovens de hoje?

 

Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP