Texto divulgado em 02/04/2026
No Dia Mundial da Conscientização do Autismo, celebrado em 2 de abril, a SPSP reforça o compromisso com a intervenção precoce do Transtorno do Espectro Autista (TEA), essencial para melhorar a qualidade de vida das crianças afetadas.
De acordo com dados do Censo 2022 do IBGE, estima-se que cerca de 2,4 milhões de brasileiros (1,2% da população) possuam diagnóstico de TEA, com maior prevalência no sexo masculino. Nas últimas décadas, o avanço do conhecimento científico tem demonstrado que sinais confiáveis do transtorno podem ser identificados já nos primeiros anos de vida, com estabilidade diagnóstica possível a partir dos 14 a 16 meses. Esse reconhecimento amplia de forma significativa a janela de oportunidade para intervenções precoces, que se beneficiam de um período de intensa plasticidade cerebral.
A infância é marcada por um rápido desenvolvimento das conexões neurais, e intervenções realizadas nesse período têm potencial de modificar trajetórias de desenvolvimento. Nesse contexto, a identificação precoce de sinais de alerta torna-se essencial e o pediatra ocupa posição central nesse processo, sendo o profissional com maior oportunidade de reconhecer precocemente alterações no neurodesenvolvimento.
Isso se deve ao acompanhamento longitudinal da criança, que contempla não apenas aspectos físicos, mas também emocionais, comportamentais, sociais e do estabelecimento do vínculo com os cuidadores.
As consultas de puericultura, realizadas de forma periódica desde os primeiros dias de vida, constituem um espaço privilegiado para a vigilância do desenvolvimento, independentemente da existência de queixas por parte da família. Nesse cenário, o pediatra pode, por meio de uma anamnese cuidadosa e da observação clínica – tanto estruturada quanto espontânea – identificar sinais precoces, como alterações motoras (movimentos gerais), dificuldades no contato visual, atraso na comunicação, padrões atípicos de interação social ou presença de comportamentos repetitivos. Além disso, o pediatra exerce papel fundamental na orientação às famílias quanto às práticas promotoras do desenvolvimento, incluindo a importância do brincar, da qualidade das interações parentais e do uso adequado de tecnologias.
A vigilância do desenvolvimento, embora essencial, deve ser complementada pelo uso sistemático de instrumentos de triagem, que aumentam a sensibilidade para a identificação de atrasos e transtornos. No caso específico do autismo, instrumentos como o M-CHAT-R/F, já validados no Brasil e recomendados por sociedades científicas, como a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), possibilitam a triagem precoce de sinais de risco, estando inclusive disponíveis em plataformas públicas como o aplicativo “Meu SUS Digital” e a Caderneta da Criança, em consonância com a Lei nº 13.438/2017. A SBP recomenda que a triagem seja realizada nas consultas de 18 e 24 meses de idade, para todas as crianças.
Diante da identificação de sinais de alerta, cabe ao pediatra orientar a família quanto às estratégias iniciais de estimulação, além de organizar o fluxo de cuidado, com a solicitação de avaliações complementares e direcionamento para serviços de intervenção precoce. Não é preciso ter pressa para se “fechar o diagnóstico”, mas o início da intervenção não deve ser adiado em quadros suspeitos. O vínculo previamente estabelecido com a família confere ao pediatra uma posição estratégica, favorecendo o acolhimento em um momento de fragilidade, a adesão às orientações e a continuidade do cuidado.
As intervenções precoces têm demonstrado impacto significativo no desenvolvimento da comunicação, da interação social e das habilidades adaptativas. Além disso, contribuem para a redução de comorbidades frequentemente associadas ao TEA, como dificuldades de sono, seletividade alimentar e alterações comportamentais.
Assim, o pediatra não apenas desempenha papel fundamental na identificação precoce do Transtorno do Espectro Autista, mas também atua como coordenador do cuidado, integrando diferentes níveis de atenção e promovendo o acesso oportuno às intervenções necessárias. Investir na capacitação do pediatra para a vigilância e triagem do desenvolvimento é, portanto, investir diretamente no futuro das nossas crianças.
A SPSP reforça que a suspeita diagnóstica precoce e a intervenção oportuna são pilares fundamentais para a promoção do desenvolvimento pleno e da inclusão de crianças com TEA na sociedade.
Fontes:
Recomendações SBNI (2024); Censo IBGE 2022; SBP.
Manual de Orientação SBP – Triagem Precoce para Autismo Modified Checklist for Autism in Toddlers – M-CHAT-R/F (abril/2024) –
disponível em:
https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/24331c-MO_Triagem_Perecoce_para_Autismo.pdf
Grupo de Trabalho sobre o Transtorno do Espectro Autista


