O Dia Nacional do Desporto Escolar, celebrado em 25 de maio e instituído pela Lei nº 14.579/2023, reforça um ponto essencial: o esporte na escola não é complemento. É parte da formação.
Quando falamos em desporto escolar, não estamos falando de rendimento ou de formar atletas. Estamos falando de um espaço educativo – onde a criança experimenta o movimento, aprende regras, convive, erra, tenta de novo e se desenvolve.
É nesse contexto que entra um conceito ainda pouco explorado na prática: a alfabetização física.
Alfabetizar fisicamente significa dar à criança as ferramentas básicas para se movimentar com confiança e competência: correr, saltar, arremessar, receber, equilibrar, mudar de direção. Essas habilidades motoras fundamentais têm uma janela de desenvolvimento privilegiada entre os 3 e 8 anos de idade – período em que a plasticidade motora é maior e a base se consolida para toda a vida ativa que virá.
E os números mostram por que isso importa. A Organização Mundial da Saúde recomenda pelo menos 60 minutos diários de atividade física moderada a vigorosa para crianças e adolescentes de 5 a 17 anos. No Brasil, a maioria não chega perto desse alvo e o tempo de tela em pré-escolares, com frequência, ultrapassa três horas diárias – o triplo do limite recomendado para essa faixa etária.
Crianças que não desenvolvem competência motora tendem a evitar a atividade física. E esse afastamento não atinge apenas o corpo: impacta a autoestima, a função executiva, gera sintomas ansiosos e depressivos, atrapalha o sono e convivência social. A literatura é consistente em mostrar que crianças mais ativas apresentam melhor desempenho cognitivo e maior bem-estar emocional.
O desporto escolar tem papel central nesse cenário. É, muitas vezes, o primeiro – e em alguns casos o único – contato estruturado da criança com o esporte. Quando bem conduzido, ensina a lidar com frustração, respeitar regras, trabalhar em grupo e persistir. Valores que não aparecem em boletins, mas formam comportamento, autonomia e convivência.
Diferente do esporte competitivo, aqui o foco não é resultado. É vivência. É processo.
O que cada um de nós pode fazer
- Pediatras: incluir, na puericultura de rotina, perguntas sobre tempo ativo, aulas de Educação Física e tempo de tela – com a mesma naturalidade com que perguntamos sobre alimentação e sono.
- Famílias: valorizar e priorizar a Educação Física escolar; criar oportunidades diárias de brincar ativo, ao ar livre sempre que possível.
- Escolas: garantir tempo, espaço e qualidade nas aulas de Educação Física, e formar professores capazes de promover alfabetização física com prazer e segurança.
No fim, não é só sobre esporte. É sobre promover saúde e formar crianças mais seguras, confiantes e preparadas para a vida.
Relatora:
Brizza Valeria Foianini Biassi
Membro do Núcleo de Estudos da Prática de Atividade Física e Esportes na Infância e Adolescência da SPSP
