O que é gagueira? é uma alteração da fluência da fala, caracterizada por repetições (por exemplo, “-pa-pa-papai”), prolongamentos de sons (“ssssala”) ou bloqueios (pausas em que a palavra não sai). É comum em crianças pequenas, enquanto a fala e o controle da linguagem estão em desenvolvimento. Nem toda gagueira na infância vira gagueira persistente (aquela que acompanha a pessoa por mais tempo).
As causas prováveis, baseadas em evidências, incluem
- Alteração ou imaturidade do desenvolvimento neurológico: algumas crianças têm um padrão de desenvolvimento da fala mais sensível; há diferenças na forma como o cérebro processa a linguagem e a coordenação motora da fala.
- Genética: estudos mostram maior risco em famílias com histórico de gagueira.
- Fatores linguísticos e do ambiente: períodos de rápido ganho de linguagem, falar muito rápido ou frases complexas podem sobrecarregar a criança. Não é culpa dos pais, mas o ambiente pode influenciar a expressão.
Fatores emocionais e de temperamento, ansiedade e frustração, eventos estressantes podem agravar a gagueira, mas não são a causa dela.
Eventos estressantes: grandes modificações na vida da criança (mudança, chegada de irmão) podem coincidir com o início, mas também não são a causa da gagueira.
Como agir quando a criança começa a gaguejar
- Manter a calma: reações de nervosismo ou correção imediata aumentam a pressão sobre a criança.
- Escutar com atenção e paciência: oferecer tempo para que termine, manter contato visual e não completar as palavras.
- Reduzir a pressa: falar de forma lenta e relaxada com a criança; usar frases curtas e pausas para modelar o ritmo natural.
- Evitar cobrar falando: “diga certo” ou corrigir a fala durante a conversa. Elogiar tentativas de comunicação, não a fluência.
- Criar momentos de interação tranquila: leitura conjunta, brincadeiras que valorizem a comunicação sem pressão.
- Procurar orientação profissional se houver dúvida: foniatras e fonoaudiólogos.
Quando se preocupar (procurar avaliação em curto prazo)
- Início após os 4–5 anos sem sinais de melhora em 3–6 meses.
- A criança evita falar em situações sociais, demonstra angústia significativa, ou a gagueira aumenta em frequência/intensidade.
- Há bloqueios longos, esforço evidente, sons cortados ou tremores na fala.
- Histórico familiar de gagueira persistente.
- Desenvolvimento da linguagem atrasado, problemas auditivos ou outras condições neurológicas/psicológicas associadas.
Quando é razoável aguardar (observação ativa)
- Início entre 18 meses e 4 anos, especialmente durante um período de rápido desenvolvimento da linguagem.
- Gagueira intermitente, com intensidade baixa e sem sinais de angústia ou evitação.
- Melhora observada em semanas a poucos meses. Nesses casos, acompanhamento cuidadoso (monitoramento por pais e, se possível, por fonoaudiólogo) é apropriado. Manter estratégias de comunicação calmas e apoio emocional costumam ajudar.
A gagueira na infância é comum e muitas vezes melhora com apoio e tempo. Agir com calma, oferecer um ambiente de fala seguro e buscar avaliação profissional quando houver sinais de risco são as melhores atitudes.
Relatora:
Sulene Pirana
Médica Otorrinolaringologista com Área de Atuação em Foniatria e Medicina do Sono
Membro do Departamento Científico de Otorrinolaringologia da SPSP
Vice-Presidente do Núcleo de Estudos de Desenvolvimento e Aprendizagem da SPSP


