O desfralde e a higiene natural

O desfralde e a higiene natural

Sociedade de Pediatria de São Paulo
Texto divulgado em 22/04/2021


O desfralde é uma importante fase na vida da criança e dos pais, por isso é essencial que se respeite o tempo individual para que seja um período livre de traumas. É um dos primeiros passos rumo à autonomia, além de um momento de descobertas – tanto de suas capacidades, como do seu próprio corpo.

O funcionamento urinário e intestinal depende de um amadurecimento neurológico e esse processo não pode ser acelerado. Além disso, existe o amadurecimento psicológico, que não é necessariamente alcançado junto com o neurológico.

Acredita-se que por volta dos 2 e 3 anos de idade a maioria das crianças esteja em uma etapa do desenvolvimento adequada para iniciar o treinamento de controle do cocô e do xixi, isto é, tem as habilidades necessárias para isso.

A identificação da hora certa para começar o desfralde ocorre a partir da observação dos sinais emitidos por cada criança. Ela deve apresentar bom desenvolvimento neurológico, andar, falar e ter o corpo mais firme, com estabilidade. O sinal mais característico é quando a criança começa a anunciar que irá fazer xixi e/ou cocô.

Os bebês já mostram sinais de suas necessidades desde muito cedo. Quando querem fazer cocô ou xixi podem ficar vermelhos, fazer bico, soltar gases e se espremerem. Podem chorar, ter dificuldade para dormir, ficar irritados e, durante a amamentação, pegar e soltar o peito. São experiências próprias e de aprendizado, sem indicar ainda uma consciência corporal.

Às vezes, esses sinais podem ser confundidos com cólicas ou alguma outra doença. Temos que lembrar que a grande maioria dos bebês não sofrerá com cólicas, constipação intestinal ou dificuldade para dormir. As assaduras, hoje em dia, também são raras, facilmente evitáveis com medidas simples de higiene.

O método da higiene natural vem sendo discutido e conta com muitos adeptos. Ele consiste em atender às necessidades de evacuações do bebê e dar uma assistência de banheiro desde o nascimento, podendo ser utilizado em qualquer idade. Os pais e cuidadores devem ficar atentos aos sinais que o bebê emite para auxiliá-los na evacuação e micção, coletando a urina e as fezes em um penico, por exemplo. Famílias adeptas do método dispensam fraldas na maioria do tempo.

Para isso deve haver um cuidador à disposição do bebê com muita paciência e dedicação. Os bebês podem fazer xixi quando estão dormindo e, quando em aleitamento materno, podem evacuar a cada mamada, muitas vezes já “capotados” de sono.

Já nos mais velhos esse método pode causar estresse já que com certeza muitos escapes acontecerão. Vivemos em sociedade, onde não podemos fazer nossas necessidades fisiológicas em qualquer lugar!

Na higiene natural alguns pontos merecem uma atenção especial. A questão ambiental, financeira e emocional, por exemplo: cada bebê pode evacuar em média de 6 a 8 vezes ao dia em seu primeiro mês de vida. Isso gera uma enorme quantidade de fraldas descartáveis. Mesmo usando fraldas de pano teria o gasto de água para lavá-las. Esse convívio tão de perto com o bebê, tentando decifrar seus sinais, com certeza aumenta o vínculo mãe-bebê e isso sempre é bom. Mas não há nenhum estudo a longo prazo que comprove que a técnica não apresente riscos para as crianças.

É essencial que os pais se informem sobre o método antes de tentar usá-lo nos filhos. Conversar com o pediatra e explicar como está a adaptação da criança é essencial. E sempre lembrar que cada criança tem o seu tempo e, às vezes, o que funciona para uma, não funciona para a outra.

 

Relatora
Adriana Monteiro de Barros Pires
Grupo de Trabalho de Desenvolvimento e Aprendizagem da Sociedade de Pediatria de São Paulo
Departamento Científico de Pediatria Ambulatorial da Sociedade de Pediatria de São Paulo


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