Onde faltam histórias, sobram limites

Onde faltam histórias, sobram limites

Uma infância sem livros é uma infância com menos horizontes. Dar um livro a uma criança é mais do que um gesto de carinho – é um ato de construção de futuro. Porque, no fundo, quem lê aprende não apenas a decifrar letras, mas a escrever a própria existência.

Ao lembrar, neste texto, o nome de Monteiro Lobato, patrono do Dia Nacional do Livro Infantil, exatamente na data do seu aniversário (18/04), desejo homenagear aqueles que têm contribuído para o desenvolvimento integral da criança ao proporcionar-lhes livros para ler.

Tomo o universo do ‘Sítio do Picapau Amarelo’, para ancorar esta reflexão. Essa série de livros é rica em ideias que celebram a imaginação, a leitura e o poder transformador dos livros. Há, nele, uma frase que pode resumir o sentido mais profundo da comemoração deste dia: “Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar.”

No universo do ‘Sítio do Picapau Amarelo’, o livro deixa de ser objeto e se torna espaço habitável. Ali, as crianças não apenas leem histórias – elas entram nelas, participam delas, questionam, discordam, reinventam. Narizinho não observa o mundo: ela o descobre. Pedrinho não aceita o mistério: ele o enfrenta. Emília, com sua irreverência, nos lembra que pensar livremente é uma das formas mais sérias de brincar.

Celebrar o livro infantil é reconhecer a infância como um território de potência intelectual, criativa e ética. Monteiro Lobato compreendia isso com clareza. Ao afirmar que “quem mal lê, mal ouve, mal fala, mal vê”, ele não fazia apenas uma defesa da alfabetização – apontava para a leitura como fundamento da própria experiência humana.

Ler exige tempo, silêncio, imaginação ativa. E é justamente nesse espaço que a criança começa a construir algo essencial: o sentido. No ‘Sítio’, Dona Benta nunca oferecia respostas prontas. Seu papel não era encerrar perguntas, mas abri-las. Esse gesto pedagógico, simples e profundo, revela uma concepção de leitura que vai além do entretenimento. Ler é aprender a pensar. É experimentar o mundo por múltiplas perspectivas. É, de certo modo, ensaiar a própria liberdade. É nele que se aprende, pela primeira vez, que o mundo pode ser diferente do que é – e, portanto, pode ser transformado. Por isso, quando Lobato afirma que “um país se faz com homens e livros”, ele está dizendo que a formação de uma sociedade começa muito antes das instituições – começa no encontro entre uma criança e uma história. É ali que se formam valores, que se organizam emoções, que se estruturam visões de mundo.

No ‘Dia Nacional do Livro Infantil’, é preciso lembrar que não há infância plena sem histórias. Cada página virada de um livro é uma porta aberta para o pensamento, para a curiosidade e para a liberdade de imaginar. O livro é o brinquedo mais poderoso que existe, pois não se quebra, não se gasta e não impõe limites. Ele convida, provoca, transforma. A leitura oferece à criança um lugar para morar. Não apenas um abrigo de papel, mas uma morada feita de sentido, de possibilidades, de encontros. A criança que lê nunca está sozinha – ela habita reinos, dialoga com personagens, atravessa florestas e mares, descobre a si mesma enquanto descobre o mundo. E, pouco a pouco, algo quase invisível acontece: aquilo que era fantasia começa a organizar a realidade. A coragem de um herói, a astúcia de uma menina curiosa, a bondade inesperada de um personagem – tudo isso vai se depositando no espírito da criança como quem constrói, tijolo a tijolo, uma maneira de estar no mundo.

Ler é ensaiar a vida. É experimentar, em segurança, os dilemas, as escolhas, as perdas e os recomeços que um dia virão. É, de certo modo, viver muitas vidas antes de viver a própria.

 

Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP