Risco de obesidade infantil pode dobrar com cesárea

A revista Veja divulgou estudo que reafirma a teoria de que crianças nascidas por cesárea têm mais possibilidades de serem obesas. A pesquisa, publicada na revista Archives of Disease in Childhood e realizada no Hospital da Infância de Boston, nos Estados Unidos, acompanhou 1.255 crianças nascidas entre 1999 e 2002 no próprio hospital, desde as 22 semanas de gestação até os três anos, sendo que 284 nasceram por cesárea. Dos bebês nascidos por parto natural, apenas 7,5% sofriam de obesidade aos três anos; dos nascidos por cesárea, 15,7% eram obesos nessa idade. De acordo com os pesquisadores, isso se deve às diferenças na composição da flora intestinal entre os nascidos por parto natural ou por cesárea – há uma maior incidência de bactérias ‘firmicutes’ no grupo de bebês de cesariana. Segundo outros estudos, essa bactéria está presente nos intestinos de pessoas que sofrem de obesidade e é considerada uma das responsáveis pelo ganho de peso de forma descontrolada. Além disso, outro motivo deve ser levado em consideração: as cesarianas são mais frequentes entre mães obesas e isso também poderia facilitar o sobrepeso dos filhos.
 
FONTE: Veja, 24 de maio de 2012
http://veja.abril.com.br/noticia/saude/cesarea-pode-dobrar-risco-de-obesidade-infantil-diz-estudo
 
 
Comentário:
Dra. Valdenise Martins Laurindo Tuma Calil
Membro do Departamento Científico de Aleitamento Materno da SPSP.
 
 
 
Esta  pesquisa  mostrou que, aos três anos de idade, havia uma probabilidade duas vezes maior de desenvolver obesidade nas crianças nascidas por parto cesárea em relação às nascidas por parto normal. Resultado semelhante foi encontrado em vários outros estudos, um dos quais coordenado pelo Prof. Marco Barbieri, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP), nas décadas de 70 e 80;
A causa pode ser a diferença na composição da flora intestinal das crianças nascidas por cesárea. Este tipo de parto não permite o contato do recém-nascido com a flora vaginal materna, que parece ser importante para a formação da flora intestinal da criança. Algumas bactérias presentes no canal de parto poderiam exercer estímulo benéfico sobre o sistema de defesa do ser humano em desenvolvimento; ao contrário, a falta desse estímulo afetaria seu metabolismo energético, favorecendo o aparecimento da obesidade.
 
Pior ainda, as alterações na flora intestinal podem estar ligadas a algumas condições inflamatórias crônicas, incluindo obesidade, alergias, doença de Crohn e diabetes tipo 1. Assim a elevada porcentagem de bactérias “Firmicutes” na flora intestinal  predispõe à obesidade por alguns mecanismos distintos. O primeiro tem a ver com a melhora da capacidade de extrair energia doa alimentos, pois essas bactérias são capazes de quebrar longas moléculas de açúcares(polissacarídeos indigeríveis dietéticos), que de outro modo não seriam absorvidas. Em segundo lugar, tais microrganismos contribuem para o desenvolvimento de uma inflamação sutil da mucosa intestinal, típica da obesidade. O terceiro mecanismo seria a possibilidade de regulação do material genético do indivíduo pelas bactérias intestinais, balanceando o gasto e o armazenamento de energia.
 
Como a obesidade materna é um fator que dificulta o parto normal, realmente ocorre maior número de cesáreas em mães obesas. Mas o ganho ponderal materno excessivo durante a gestação pode ser mais prejudicial para o recém-nascido do que a obesidade materna pré-existente, pois favorece maior acúmulo de gordura pela criança.
 
Os recém-nascidos mantidos em aleitamento materno exclusivo certamente terão menor possibilidade de desenvolver obesidade, mesmo quando nascidos por parto cesárea. Os mecanismos que determinam essa proteção ainda não estão totalmente esclarecidos, mas já se conhece alguns deles. Assim, sabe-se que a composição de nutrientes do leite humano é a ideal para suprir as necessidades do lactente. Outro fator coadjuvante é o gasto energético envolvido no ato de sugar o seio materno; enquanto o leite administrado por mamadeira é ingerido praticamente pela ação da força da gravidade, a amamentação requer esforço de toda a musculatura facial, o que contribui também para a oclusão dentária e para prevenir distúrbios da fala. Crianças em aleitamento materno param de mamar quando ficam satisfeitas, enquanto aquelas em aleitamento artificial costumam sugar até esgotar o conteúdo da mamadeira, perdendo a capacidade de atingir naturalmente a saciedade; isso pode se relacionar a episódios mais tardios de compulsão alimentar. Há ainda a questão emocional: a autoestima de crianças em aleitamento materno é sabidamente mais desenvolvida, o que reduz a ansiedade e contribui para a formação de melhor hábito alimentar futuro.
 
Tem-se estudado, nos últimos anos, o chamado “imprinting metabólico”, segundo o qual as primeiras experiências nutricionais do indivíduo podem afetar sua suscetibilidade para doenças crônicas na idade adulta, tais como obesidade, hipertensão arterial, doença cardiovascular e diabetes tipo 2. Fica evidente, portanto, a grande contribuição do aleitamento materno nos primeiros meses de vida para a prevenção de doenças futuras, fato que precisa ser bastante divulgado.
 

Texto divulgado em 25/10/2012