Síndrome respiratória pelo novo Coronavírus (2019n-CoV): o que precisamos saber?

Os coronavírus (CoVs) são conhecidos desde a década de 60 e têm esse nome porque lembram uma coroa (corona, em latim). Acometem principalmente crianças na sua forma mais habitual e são associados a quadros variados, mais comumente infecções do trato respiratório superior (resfriado comum), mas também do trato respiratório inferior (bronquiolite, pneumonia).

Alguns CoVs originam-se de infecções em animais e, quando transmitidos ao ser humano, causam epidemias e pandemias, com infecções potencialmente muito graves e altas taxas de letalidade.

O primeiro CoV sobre o qual temos conhecimento, e que determinou grande epidemia, ocorreu entre 2002 e 2003, com origem na China (província de Guangdong) e foi conhecido como SARS-CoV por causar uma síndrome respiratória aguda grave, apresentando quadro similar ao Influenza grave, com insuficiência respiratória aguda e progressiva. Nessa época, foram confirmados 8.096 casos em 29 países, com letalidade próxima a 10%. A Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou o fim da epidemia em julho de 2003.

Em 2012, outro CoV causou nova epidemia, o MERS-CoV ou síndrome respiratória do Oriente Médio, com identificação inicial na península Arábica, atingindo África e Ásia, e teve o Dromedário como hospedeiro intermediário entre o ser humano e o morcego. Ocorreram 2.494 casos, com 858 mortes (letalidade de 35%) em 27 países.

Em 31 de dezembro de 2019, a China fez um alerta para OMS quanto a casos de pneumonia de etiologia desconhecida na cidade de Wuhan, província de Hubei. Em 7 de janeiro de 2020, autoridades chinesas identificaram um novo tipo de CoV. A partir daí, convivemos com nova epidemia de um novo vírus: o 2019-nCoV. Estudos mostram que, muito provavelmente, esse vírus é proveniente dos morcegos e se iniciou em um mercado de animais silvestres em Wuhan, na China. A transmissão ocorreu pela aspiração das partículas virais provenientes das fezes de morcego no mercado, com casos iniciais em frequentadores do mercado. Rapidamente o vírus disseminou-se em Wuhan, em seguida por outras cidades chinesas, Tailândia, Japão, chegando a 24 países em um mês, mostrando a transmissão interpessoal.

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Situação atual

Até 4 de fevereiro de 2020, a OMS registrou 20.647 casos confirmados de infecção pelo 2019-nCoV, com 426 óbitos (425 na China e um nas Filipinas), em 25 países (2,07% de letalidade). Importante ressaltar que essa é a letalidade dos casos diagnosticados, que são aqueles sintomáticos. Possivelmente, muitos casos podem ser assintomáticos ou ter apenas sintomas leves, o que diminuiria a letalidade. Apesar de menor mortalidade que as outras epidemias por CoV, percebe-se uma capacidade maior de transmissibilidade, ou seja, contágio de transmissão entre seres humanos aparentemente mais consistente. Ainda não observamos transmissão sustentada fora da China (entre seres humanos), mas esta parece ser possível, já tendo ocorrido no Vietnã e na Alemanha.

Características importantes

  1. 70% dos casos de 2019-nCoV ocorreram no sexo masculino;
  2. Não há casos de pneumonia relatados em menores de 15 anos;
  3. Até o presente momento, todos os casos diagnosticados têm relação com viagem à China ou com contato de alguém que esteve na China.

O Ministério da Saúde, no Brasil, tem realizado monitoramento diário da situação do 2019-nCoV junto à Organização Mundial da Saúde, que acompanha o assunto desde as primeiras notificações, em 31 de dezembro de 2019. Já foram notificados alguns casos suspeitos, mas nenhum confirmado até o momento.

Manifestações clínicas

As manifestações clínicas observadas são muito semelhantes às das epidemias anteriores e compreendem: febre, tosse, mialgia (dor muscular), fadiga, com uma parte dos casos evoluindo com pneumonia e insuficiência respiratória. É fundamental lembrarmos que casos leves e até assintomáticos podem ocorrer, como observamos com os demais vírus respiratórios.

Os indivíduos com idade nos extremos da vida, predominantemente acima de 60 anos, comorbidades, tratamento imunossupressor ou doenças pulmonares são os mais propensos a desenvolverem o quadro grave.

O tempo entre a exposição ao vírus e o início da doença (período de incubação) ainda é incerto, mas estima-se de 2 a 14 dias – segundo a agência americana CDC (Centers for Disease Control and Prevention) – e 2 a 10 dias, de acordo com a OMS. Alguns estudos já demonstraram que a transmissão do vírus ocorre antes do início dos sintomas. Também não se sabe até o momento se um indivíduo pode ser infectado mais de uma vez.

Diagnóstico

O diagnóstico do 2019-nCoV é feito com a coleta de materiais respiratórios. É necessária a coleta de duas amostras na suspeita do Cov. As duas amostras serão encaminhadas com urgência para o Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen).

É importante considerar a possibilidade do quadro respiratório febril ser causado por outro vírus respiratório e, sempre que possível, deve-se incluir na avaliação diagnóstica a pesquisa desses vírus, principalmente Influenza e Vírus Sincicial Respiratório (VSR).

Definição de caso suspeito

Com a amplitude da região de risco – toda a China – pessoas vindas dessa localidade nos últimos 14 dias e que apresentem febre e sintomas respiratórios podem ser consideradas como casos suspeitos.

Neste momento, segundo o Ministério da Saúde (MS), três situações definem um caso suspeito. Veja no quadro abaixo:

Situação 1 Situação 2 Situação 3
Febre E pelo menos um sinal ou sintoma respiratório (tosse, dificuldade para respirar) histórico de viagem para área com transmissão local, de acordo com a OMS, nos últimos 14 dias anteriores ao aparecimento dos sinais ou sintomas; OU Febre E pelo menos um sinal ou sintoma respiratório (tosse, dificuldade para respirar) histórico de contato próximo de caso suspeito para o coronavírus nos últimos 14 dias anteriores ao aparecimento dos sinais ou sintomas; OU Febre OU pelo menos um sinal ou sintoma respiratório (tosse, dificuldade para respirar) E contato próximo de caso confirmado de coronavírus em laboratório nos últimos 14 dias anteriores ao aparecimento dos sinais ou sintomas.

Os casos suspeitos devem ser mantidos em isolamento enquanto houver sinais e sintomas clínicos. Casos descartados laboratorialmente, independente dos sintomas, podem ser retirados do isolamento.

Tratamento

Ainda não existem medicamentos para o tratamento da infecção pelo CoV e antibióticos não são efetivos. E ainda não há vacina desenvolvida para o 2019 n-CoV. As medidas de suporte, como hidratação, alimentação adequada, oxigenação e suporte ventilatório, além de repouso, são, até o momento, as únicas eficazes para o tratamento.

Medidas de prevenção

O Ministério da Saúde orienta cuidados básicos para reduzir o risco geral de contrair ou transmitir infecções respiratórias agudas, incluindo o 2019 n-CoV. Entre as medidas estão: 

  • evitar contato próximo com pessoas que sofrem de infecções respiratórias agudas;
  • realizar lavagem frequente das mãos, especialmente após contato direto com pessoas doentes ou com o meio ambiente;
  • utilizar lenço descartável para higiene nasal;
  • cobrir nariz e boca quando espirrar ou tossir;
  • evitar tocar mucosas de olhos, nariz e boca;
  • higienizar as mãos após tossir ou espirrar;
  • não compartilhar objetos de uso pessoal, como talheres, pratos, copos ou garrafas;
  • manter os ambientes bem ventilados;
  • evitar contato próximo a pessoas que apresentem sinais ou sintomas da doença;
  • evitar contato próximo com animais selvagens e animais doentes em fazendas ou criações;
  • viagens para a China devem ser realizadas apenas em casos de extrema necessidade; 
  • um importante lembrete: surtos epidêmicos apresentam um número razoável de infecções em pessoas, portanto os cuidados de proteção são imprescindíveis.

Profissionais de saúde devem utilizar medidas de precaução padrão, de contato e de gotículas (máscara cirúrgica, luvas, avental não estéril e óculos de proteção).

Todos os casos devem ser notificados imediatamente.

Relatores:
Dra. Flavia J. de Almeida
Dra. Marcelo Otsuka
Dr. Eitan N. Berezin
Departamento Científico de Infectologia da Sociedade de Pediatria de São Paulo.