SPSP alerta sobre os riscos da baixa cobertura vacinal

SPSP alerta sobre os riscos da baixa cobertura vacinal

Texto divulgado em 17/10/2022


As coberturas vacinais (CV) no Brasil, para as vacinas do calendário da criança, até pouco tempo sempre foram elevadas, destacando-se no cenário internacional como uma das melhores. Em nosso país, o Programa Nacional de Imunizações (PNI), em seus quase 50 anos de existência, tornou-se modelo, com constantes incorporações de novas vacinas, grande capilaridade, dinamismo, gratuidade e grande credibilidade e confiança, conquistadas desde a sua criação. Entretanto, nos últimos anos, especialmente a partir de 2016, temos observado quedas progressivas nas taxas de CV, que se acentuaram de forma preocupante durante a pandemia da Covid-19 (Tabela 1).

Programa Nacional de Imunizações do Brasil (PNI)

 

O PNI foi criado em 1973 – ano em foi declarada a erradicação da varíola nas Américas, abrindo uma nova etapa na história das políticas de Saúde Pública no campo da prevenção.

Importantes ações de gestão, planejamento, capacitação, infraestrutura e logística foram capazes de gerar confiança e credibilidade por parte de toda a população.

Assim, com as mais de 38.000 salas de vacinas distribuídas por todo o país, o Brasil alcançou a erradicação da varíola, contribuiu para a eliminação da poliomielite, interrompeu a transmissão do sarampo e da rubéola, conseguiu eliminar o tétano materno neonatal, reduziu a incidência de difteria, coqueluche, meningite causada por H. influenzae tipo b, tétano, tuberculose em menores de 15 anos de idade, além da redução significativa nas taxas de mortalidade infantil.

 

Possíveis causas para a queda das coberturas vacinais

A redução nas taxas de vacinação tem sido atribuída a diversos fatores, que em um país continental como o Brasil deve ser compreendida em suas diferentes regiões e particularidades; entretanto, destacam-se como as principais razões: perda de percepção de risco para doenças que já não fazem mais parte de nossa rotina, desabastecimento frequente de algumas vacinas, horários de funcionamento dos postos de saúde, que muitas vezes não são compatíveis com as jornadas de trabalho de muitas famílias, a própria complexidade do calendário vacinal, com grande número de visitas necessárias para seu adequado cumprimento, entre outros. Além do surgimento de grupos antivacinas, que disseminam notícias falsas sobre a segurança e a efetividade dos imunizantes.

 

Calendário vacinal do PNI

O esquema vacinal da criança inclui, no PNI, 12 vacinas contra 17 diferentes doenças, segundo o calendário proposto pelo Ministério da Saúde (Tabela 2).

Tabela 2. Vacinas disponibilizadas pelo PNI para crianças nos dois primeiros anos de vida, Brasil 2022.

Coberturas vacinais na pandemia da Covid-19

As taxas de CV, que já vinham em queda, tiveram forte impacto negativo com a pandemia da Covid-19. As atenções e a sobrecarga do Sistema de Saúde voltadas à pandemia e também o receio da população em frequentar serviços de vacinação foram determinantes para que a procura pela vacinação fosse deixada em segundo plano. A análise dos dados evidenciou, em 2020, um decréscimo nos índices de CV para todas as vacinas do calendário infantil na vigência da pandemia, comparado ao ano imediatamente anterior, embora as CV para a vacina pentavalente tenham sido incrementadas em função do desabastecimento da vacina no ano anterior.

 

Riscos de queda nas taxas de coberturas vacinais

A queda nas taxas de CV na infância traz enormes preocupações para todos os países, com risco de retorno de doenças já controladas e eliminadas, como o sarampo, a difteria e até a poliomielite. A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que dados oficiais apontaram que 23 milhões de crianças não receberam as vacinas básicas por meio dos serviços de vacinação de rotina em 2020, representando 3,7 milhões a mais do que em 2019.

 

Vacinas Covid-19 em pediatria

Recentemente, as vacinas Covid-19 foram licenciadas também para crianças e adolescentes a partir de 6 meses de idade. É urgente a adoção da vacinação para a proteção de lactentes e pré-escolares, que respondem hoje por parcela significativa dos casos. Além disso, a vacinação tem potencial para prevenir a Covid de longa duração e complicações como a síndrome inflamatória multissistêmica.

 

Conclusões

A recuperação de elevada e homogênea cobertura vacinal é crucial para a manutenção do controle e eliminação de diversas doenças imunopreveníveis. As conquistas obtidas pelos extensos programas de vacinação representam marco fundamental da saúde pública. A pandemia da Covid-19 agravou a situação da queda nas taxas de vacinação e todos os esforços para a sua recuperação devem ser realizados.

Neste cenário, a Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP) conclama seus associados e a população para, juntos, desenvolvermos ações para aumentar a imunização infantil e sustentá-la em um patamar elevado!

É fundamental a participação de todos os pediatras para que, na sua prática diária, avaliem a situação vacinal de todas as crianças e adolescentes, estimulando o conhecimento sobre o valor das vacinas e, com isso, certamente, aumentando a adesão de todos aos programas de vacinação.

 

Relator:
Renato de Ávila Kfouri
Vice-Presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade de Pediatria de São Paulo