“Cansado, acabei cochilando sentado onde estava. Depois de algum tempo, que não sei precisar, me vi percorrendo aquela exposição: fui convidado a adentrar numa sala interativa. O aspecto externo lembrava a capa de um livro. A porta era grande, maior que o tamanho habitual. Tinha uma textura de capa de livro e um cheiro peculiar de papel. Abri a porta lentamente. Uma claridade foi surgindo e, de repente, como se tivesse sido tragado por uma lufada de vento suave, eu estava inserido no interior de um ambiente mágico…. As paredes eram flexíveis e aquela à minha frente permitia que eu a puxasse pela lateral direita e a dobrasse – imediatamente um novo cenário se descortinava. A cada passo que eu dava parecia que adentrava em outro cenário… Era como se estivesse virando páginas de livro vivo e dinâmico.
As páginas – digo, os ambientes – eram largos como campos, ondulavam como tecido vivo. Comecei a caminhar num estranho “sonho acordado”, onde cada passo virava palavra e cada palavra virava mundo.
De repente tropecei – não numa dobra do papel, mas numa pedra enorme, firme, inevitável. Drummond, encostado na margem da página, comentou: “Às vezes, meu amigo, a vida escreve obstáculos para ensinar a ler melhor.” Entendi que algumas leituras não são trilhas, são travessias.
Segui, puxando a ranhura da parede na lateral direita, como quem abre uma porta secreta. O ar mudou: ficou leve, translúcido. Cecília Meireles surgia ali, movendo-se como bruma. “O papel é só a superfície,” disse ela. “O que você lê são partidas, chegadas, retornos.” Senti que aquele espaço entre páginas era como os intervalos da vida – finos, decisivos.
Dando mais um passo, caí dentro de uma cidade feita de letras: ruas tortas, varandas que pareciam vírgulas, sombras que se esticavam como parênteses.
Machado de Assis observava da janela de um sobrado. “Não confie no narrador,” advertiu. “Nem no que você acha que está vendo. Ler é suspeitar.” E a cidade pareceu piscar, como se tudo ali pudesse ser interpretação.
Quando virei a próxima página – digo, puxei a lateral da parede – o mundo se abriu em uma planície vasta, com vento largo e luz de horizontes. Era Érico Veríssimo quem caminhava por ela. “A vida anda sempre adiante,” disse, sem parar o passo. “E os livros são jeitos de caminhar mesmo quando estamos sentados.” Percebi que algumas histórias alimentam a alma.
A página seguinte exalava música. Notas escorriam pelas margens como tinta viva. Vinicius de Moraes surgia dedilhando um violão feito de palavras. “Leia como quem ama”, aconselhou. “Só assim o texto te devolve inteiro.” Senti que havia livros que ensinavam a respirar mais fundo.
Na dobra da última página, quase escondida na sombra, uma mulher caminhava devagar, como quem costura pensamentos. Carla Madeira ergueu os olhos: “O livro te atravessa enquanto você o atravessa”, disse. “Somos feitos dos fios que encontramos.”
Atravessei, então, para a página final. No centro daquela parede estava escrito: “as leituras nos constituem”.
Em comemoração ao Dia do Leitor.
Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP


