Violência contra animais: análise ética e social

Texto divulgado em 13/02/2026


A violência contra animais é um fenômeno social complexo que reflete padrões estruturais de negligência e a desvalorização da vida não humana. Frequentemente naturalizados, atos como agressão física, abandono e exploração econômica violam princípios éticos fundamentais e demandam respostas institucionais robustas. Do ponto de vista jurídico e moral, esses atos não apenas comprometem a integridade dos animais, mas revelam falhas na construção de uma cultura de responsabilidade socioambiental e, segundo estudos, podem indicar dinâmicas mais amplas de violência interpessoal.

Atualmente, essa problemática ganha contornos alarmantes com os “desafios” em redes sociais praticados por adolescentes. Nesses espaços, a busca por visibilidade e pertencimento pode sobrepor a lógica da viralização à ética, transformando a crueldade em entretenimento ou afirmação identitária. Esse comportamento não é um fato isolado; pesquisas em psicologia e criminologia sugerem que a agressividade contra animais na juventude é um indicador crítico de saúde social e um reflexo das tensões entre tecnologia e formação moral.

Diante de casos extremos, é comum o surgimento de respostas simplistas, como a defesa da redução da maioridade penal ou a estigmatização da juventude como inerentemente violenta. Contudo, a adolescência é uma fase de maturação cerebral e emocional — especialmente em áreas ligadas ao controle de impulsos e à empatia. Embora isso não exima o jovem de responsabilidade, exige uma análise dos seus determinantes.

Adolescentes estão expostos a múltiplas formas de violência (familiar, social e digital), o que pode gerar uma dessensibilização progressiva. Além disso, a cultura contemporânea, muitas vezes, confunde agressividade com proatividade e competitividade com desempenho, obscurecendo os limites éticos.

Para compreender a raiz desses comportamentos, as teorias do desenvolvimento oferecem caminhos essenciais. Donald Winnicott ressalta que a capacidade de conter a agressividade depende da qualidade do ambiente (estabilidade e cuidado). Sem esse suporte, impulsos brutos tendem a se manifestar. Melanie Klein observa que o sadismo e a ansiedade fazem parte do desenvolvimento inicial; o amadurecimento saudável permite que a criança encontre meios sociais para elaborar fantasias destrutivas através do contato com a realidade.

Assim, episódios de violência extrema não podem ser compreendidos apenas como falhas individuais ou desencadeados por problemas psicopatológicos pré-existentes, mas como sinais de fraturas nos processos de sustentação psíquica, familiar e social. A responsabilização é necessária, mas ela deve caminhar junto com o cuidado, acompanhamento médico, psicológico e com o fortalecimento de vínculos familiares e sociais.

Violência contra animais transcende a indignação imediata, promovendo uma educação para a empatia e o respeito a todas as formas de vida, ensinando a sociedade a manejar sua própria agressividade antes que ela se converta em tragédia.

 

Departamento Científico de Adolescência da SPSP