Vamos falar de cigarro? De novo?

Vamos falar de cigarro? De novo?

Mãe de adolescente sabe bem: a rotina nunca é fácil. Naquela manhã, ela acordou com pressa e com a sensação de que o tempo voava. Ao entrar no quarto da filha – que acabara de sair para a escola –, tentou apenas minimizar a bagunça diária. Como de costume, entrar ali parecia uma visita a uma loja de departamentos (não faltam piadas sobre isso): saía sempre carregando duas canecas, um copo, uma calça e três moletons espalhados. Ao recolher a bolsa usada na festa do fim de semana, que estava aberta em um canto, veio a surpresa: no fundo, encontrava-se um maço de cigarros aberto. Era daquela marca antiga, que ela mesma usava para fazer piada, lembrando dos tios fumando na sua infância. Que situação inesperada! O que fazer? A primeira reação, movida pelo impulso, era a de buscar a filha na escola naquele exato momento para confrontá-la (na verdade, queria tomar uma atitude bem brusca!).

Embora essa seja uma cena fictícia, ela ilustra uma realidade enfrentada por algumas famílias. O tabaco continua sendo uma das substâncias de abuso mais frequentes em nosso meio. Estatísticas brasileiras apontam para um aumento explosivo no consumo de nicotina por meio de dispositivos eletrônicos, os famosos vapes. No entanto, muitos adolescentes ainda recorrem aos cigarros convencionais e a alternativas que ganharam espaço, como os cigarros de palha (na moda em algumas festas da moçada).

Esse consumo tende a crescer conforme a idade avança e, como já destacado em publicações anteriores do nosso departamento, é fortemente influenciado pelo grupo social em que o jovem se insere. O desejo de pertencimento muitas vezes diminui o julgamento crítico.

A partir do momento da descoberta, o que fazer?

Não existe uma receita mágica, mas algumas estratégias podem ajudar os pais:

  1. manter um diálogo aberto – a proibição isolada ou a punição raramente mudam o comportamento; pelo contrário, podem afastar o jovem e criar uma cultura de segredos);
  2. conhecer o entorno do seu filho – saiba quem são os amigos, quais são os seus espaços de convivência e participe ativamente da sua rotina),
  3. apoiar em vez de punir – pais acolhedores e que compreendam a raiz do problema, deixando os julgamentos de lado;
  4. monitorar o universo digital – o adolescente de hoje é hiperconectado. A publicidade do tabaco não está mais na TV aberta, mas camuflada em plataformas de streaming, redes sociais e influenciadores digitais;
  5. conversar abertamente sobre o que eles consomem na internet.

 

Além disso, fortaleça a parceria com a escola: as instituições de ensino podem adotar o conceito de “campus saudável”, fiscalizando o uso de substâncias em seus perímetros, e capacitando professores para identificar sinais de vulnerabilidade. Pais e escolas devem formar uma rede única de apoio. Cada um fazendo a sua parte.

Descobrir que um filho adolescente está fumando pode evocar sentimentos de falha, medo e frustração. Contudo, esse momento crítico deve ser transformado em uma oportunidade de aproximação e não de ruptura. O combate ao tabagismo jovem não se faz na força da autoridade, mas sim no vínculo familiar. Ao substituir o confronto pelo acolhimento e a punição pela informação, os pais conseguem desarmar o adolescente. Proteger essa geração exige presença ativa, escuta atenta e a construção de uma rede de cuidado que envolva a família, a escola e a sociedade. Afinal, educar dá trabalho, mas é sinônimo de afeto.

 

Relatora:
Ana Paula Pascalicchio Bertozzi
Membro do Núcleo de Estudos do Combate ao Uso de Drogas da SPSP